26 de fevereiro de 2009
Simas: Necrológio
Vou sempre lembrar dos latidos histéricos quando eu voltava pra casa, não importava o tempo que eu passasse fora, cinco dias ou cinco minutos. Quando chover e cair trovoadas, e eu não ouvir o barulho de patinhas arranhando a porta, de um cachorro medroso, querendo entrar em casa pra se esconder debaixo da minha cama pra dormir seguro. No dia que isso não acontecer, ficarei triste. Vou me lembrar de quando mancava quando o tempo estava para chover, numa incrível previsão do tempo que superava a de qualquer meteorologista experimentado e equipado. Vou me lembrar das fanfarronices de valentão que às vezes acabava em surra de cachorros maiores. Vou me lembrar da companhia aos meus pés enquanto eu lia. Vou me lembrar simplesmente do pêlo totalmente negro que foi clareando no tempo.
E agora? Em quem vou limpar os pés antes de entrar em casa? A quem vou dirigir meus palavrões amigáveis? Quem vou carinhosamente xingar? E os tapinhas de eco oco, quem vai receber? E as declarações de amor, ridículas e patéticas, que só um cachorro ouviria sem rir ou ter dor de barriga, pra onde vão?
Um abanar de cauda (que balançava toda a traseira junto) ou um olhar maroto de canto era só o que eu precisava pra mudar do pior humor para um sorriso e uns afagos. Nos momentos em que estive mais só, nunca estive totalmente só. Obrigado, meu amigo.
Um pedaço de mim se foi. Um tanto de alegria a menos no espírito. Adeus Simas.
Um tempo qualquer também chegará o meu tempo se ser eterno no barro. Até lá.
9 de janeiro de 2009
Busca da Verdade
Olhei tempo demais para a escuridão e nenhuma luz penetra mais em meus olhos e eu só enxergo dentro de mim.
Vociferei contra Deus e abandonei o convívio dos homens.
Tudo pela lucidez desesperada que me traria a Verdade.
Mas ah, a verdade é que não existe Verdade.
Só existe eu: sozinho, cego e nu.
5 de janeiro de 2009
Livros lidos em 2008
Título do livro (Nome do autor)
[Definição, Editora, número de páginas, complementos]
Livros lidos em 2008:
1- Harry Potter e as Relíquias da Morte (JK Rowling)
[Romance, Ed. Rocco, 590 páginas]
2- O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry)
[Romance, Ed. Agir, 96 páginas]
3- Crime e Castigo (Fiodor Dostoiévski)
[Romance, Ed. 34, 568 páginas]
4- Eneida (Virgílio)
[Poesia épica, Ed. Martin Claret, 449 páginas]
5- Antologia Poética (Carlos Drummond de Andrade)
[Poesia, Ed. Record, 271 páginas]
6- Cândido ou o Otimismo (Voltaire)
[Novela, Ed. L&PM, 146 páginas]
7- Rei Lear; Macbeth (William Shakespeare)
[Teatro, Ed. Verbo, 327 páginas]
8- Comédias Completas: volume 1 (Aristófanes)
[Teatro, Ed. Iberia, 193 páginas, em espanhol]
{Peças: Os Acarnenses, Os Cavaleiros, As Nuvens, As Vespas, A Paz}
9- Metamorfoses da Cultura Contemporânea (orgs: Fernando Schüler e Juremir Machado da Silva)
[Sociologia/Cultura, Ed. Sulina, 176 páginas]
10- O Restaurante do Fim do Universo (Douglas Adams)
[Romance, Ed. Brasiliense, 238 páginas]
11- Uma Temporada no Inferno & Iluminações (Arthur Rimbaud)
[Poesia, Ed. Francisco Alves, 152 páginas]
12- Pós-Modernismo e Literatura (Domício Proença Filho)
[Literatura/História, Ed. Ática, 84 páginas]
13- O Estrangeiro (Albert Camus)
[Romance, Ed. Record, 126 páginas]
14- A Morte de Ivan Ilitch (Leon Tolstoi)
[Novela, Ed. L&PM, 99 páginas]
15- Ecce Homo (Friedrich Nietzsche)
[Filosofia/Autobiografia, Ed. L&PM, 192 páginas]
16- A Revolução Mexicana (Héctor Alimonda)
[História, Ed. Moderna, 64 páginas)
17- A Morte Feliz (Albert Camus)
[Romance, Ed. Record, 147 páginas]
18- O Fim da Modernidade (Gianni Vattimo)
[Filosofia, Ed. Martins Fontes, 209 páginas]
19- O Visconde Partido ao Meio (Italo Calvino)
[Romance, Ed. Companhia das Letras, 100 páginas]
20- A Cantora Careca (Eugène Ionesco)
[Teatro, Ed. Papirus, 148 páginas]
21- O Rinoceronte (Eugène Ionesco)
[Teatro, Ed. Agir, 176 páginas]
22- Malone Morre (Samuel Beckett)
[Novela, Ed. Brasiliense, 160 páginas]
23- O Avesso e o Direito (Albert Camus)
[Ensaio, Ed. Record, 109 páginas]
24- O Dicionário do Diabo (Ambrose Bierce)
[Dicionário satírico, Ed. Mercado Aberto, 248 páginas]
25- Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão (Arthur Schopenhauer)
[Filosofia, Ed. Topbooks, 258 páginas]
26- Nossa Senhora das Flores (Jean Genet)
[Romance, Nova Fronteira, 331 páginas]
27- Pós-modernidade (Nicolau Sevcenko, et al.)
[Sociologia/Literatura, Ed. UNICAMP, 88 páginas]
28- Moderno X Pós-moderno (Michel Maffesoli e Sérigo Paulo Rouanet)
[Sociologia, Ed. UERJ, 86 páginas]
29- Suicídio, Modo de Usar (Claude Guillon e Yves Le Bonniec)
(Opinião, Ed. EMW, 233 páginas]
30- Névoa (Miguel de Unamuno)
[Romance, Ed. Nova Fronteira, 187 páginas]
31- A História Repensada (Keith Jenkins)
[História, Ed. Contexto, 120 páginas]
32- Partículas Elementares (Michel Houellebecq)
[Romance, Ed. Sulina, 340 páginas]
33- O Aleph (Jorge Luis Borges)
[Contos, Ed. Globo, 146 páginas]
34- Poesias de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
[Poesia, Ed. FTD, 300 páginas]
35- As Origens da Pós-modernidade (Perry Anderson)
[História, Ed. Jorge Zahar, 165 páginas]
36- Grana (Martin Amis)
[Romance, Ed. Rocco, 411 páginas]
37- El Malentendido; Calígula; El Estado de Sitio (Albert Camus)
[Teatro, Ed. Losada, 207 páginas, em espanhol]
38- O Aprendiz de Morte (Terry Pratchett)
[Romance, Ed. Conrad, 253 páginas]
39- Poemas de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
[Poesia, Ed. L&PM, 331 páginas]
40- Devoradores de Mortos (Michael Crichton)
[Romance, Ed. Rocco, 162 páginas]
41- Poesias (Fernando Pessoa, ortônimo)
[Poesia, Ed. Clássica, 189 páginas]
42- Flores do Mal (Charles Baudelaire)
[Poesia, Ed. Sulina, 199 páginas, tradução: Juremir Machado da Silva]
43- Utz (Bruce Chatwin)
[Romance, Ed. Companhia das Letras, 134 páginas]
44- Niilismo (Rossano Pecoraro)
[Filosofia, Ed. Jorge Zahar, 64 páginas]
45- O Novo Século (Eric Hobsbawn)
[História, Ed. Companhia das Letras, 196 páginas, entrevista a Antonio Polito]
46- Diálogos sobre o Conhecimento (Paul Feyerabend)
[Epistemologia, Ed. Perspectiva, 121 páginas]
47- Eu e Outras Poesias (Augusto dos Anjos)
[Poesia, Ed. Martins Fontes, 391 páginas]
48- A Vida, o Universo e Tudo Mais (Douglas Adams)
[Romance, Ed. Sextante, 221 páginas]
49- Um Retrato do Artista Quando Jovem (James Joyce)
[Romance, Ed. Siciliano, 255 páginas]
50- Noite na Taverna (Álvares de Azevedo)
[Contos, Ed. Avenida, 112 páginas]
51- Breviário de Decomposição (Emile Cioran)
[Filosofia, Ed. Rocco, 176 páginas]
52- Lenz; Lenz - Um Relato (Georg Büchner; Peter Schneider)
[Novelas, Ed. Brasiliense, 165 páginas]
53- Silogismos da Amargura (Emile Cioran)
[Aforismos, Ed. Rocco, 93 páginas]
54- Nova Antologia Poética (Mario Quintana)
[Poesia, Ed. Globo, 175 páginas]
55- Orgulho e Preconceito (Jane Austen)
[Romance, Ed. Martin Claret, 316 páginas]
56- Quando Fui Outro (Fernando Pessoa)
[Poesia, Ed. Objetiva, 223 páginas, org. Luiz Ruffato]
57- Nau Frágil (Juremir Machado da Silva)
[Novela, Ed. Sulina, 96 páginas]
58- A Queda (Albert Camus)
[Novela, Ed. BestBolso, 111 páginas]
59- Introdução à História da Arte (Kenia Pozenato e Mariem Gauer)
[História, Ed. Mercado Aberto, 104 páginas]
60- Odes de Ricardo Reis (Fernando Pessoa)
[Poesia, Ed. Ática, 204 páginas]
61- Que É Contracultura? (Carlos Alberto Messeder Pereira)
[História, Ed. Brasiliense, 97 páginas]
62- O Niilismo (Franco Volpi)
[Filosofia, Ed. Loyola, 163 páginas]
63- Quintana de Bolso (Mario Quintana)
[Poesia, Ed. L&PM, 168 páginas]
64- Defeitos Escolhidos & 2000 (Pablo Neruda)
[Poesia, Ed. L&PM, 128 páginas, bilíngüe]
9 de dezembro de 2008
Revelação
Fugindo às celas da mente,
corro pelas ruas, vestido de crueldade,
cuspindo, contra o vento, escarros de amargura.
E para todos os seres sou ao frio aço semelhante,
mas para meu amor sou apenas ternura.
Cansado de percorrer solitário
os desertos sombrios da Existência,
me deparo com tua paradoxal presença:
doce, comovente e perturbadora, que
desequilibra, derruba e faz levitar.
Entre lágrimas, sorrisos e dúvidas
um amor desponta tímido e, como o sol,
dissipa todas as trevas.
Confere sentido, calor, alegria e propósito
ao árido caminho de um construto.
que tens o semblante refletindo meus sonhos e que
rouba a minha alma num beijo.
21 de julho de 2008
Macacos amestrados
Sou um macaco. Um macaco especial, como todos os macacos. Sou um macaco amestrado. Desde a mais tenra idade fui ensinado a fazer truques. Truques muito legais, tenho que admitir, como: falar, ouvir, ver, assistir TV, ler, ir à escola, ir à igreja, idolatrar outros macacos, viver em sociedade, trabalhar, comprar, entre outros truques igualmente impressionantes. Fui treinado para aceitar que tudo isto é natural, inerente à minha condição de macaco. Fui treinado, enfim, para sequer desconfiar que fui treinado.A televisão, por exemplo, é uma das melhores coisas já criadas para macacos. Não sei como sobrevivi sem ela antes dos meus dois anos de vida. E as compras então! Fui treinado para ser feliz somente quando passo os pequenos pedaços de papel colorido a outro macaco. Todas as agruras de macaco são compensadas nessa hora. Não importa no que eu gaste o dinheiro: sapatos, roupas, carros, cinema, concertos, livros ou sexo. O fato é que só sou feliz consumindo.
Como pode ver, não é muito difícil fazer um macaco amestrado feliz. Basta dar a ele algo em que acreditar, uma ordem para que ele execute, e um dinheiro para que ele gaste. Ser um macaco amestrado não é pedir muito.
Tem um lado bom e um ruim em ser um macaco amestrado. O lado bom é que eu compartilho o meu treinamento com todos os outros macacos. Somos todos eficientes macaquinhos cumpridores de ordens. O lado ruim é que nenhum macaco amestrado acredita que é amestrado. Todos os macacos crêem firmemente que são originais e livres. Talvez o lado ruim seja o lado bom e vice-versa porém...
E eu? Eu também? É, eu também, claro. Eu sei que sou amestrado, mas ao contrário da maioria, eu admito que sou. Um certo macaquinho francês, Jean-Paul Sartre, escreveu uma vez: "não importa o que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós". Tem um grande otimismo, essa frase, apesar de tudo. Mas todo o treinamento que eu der a mim mesmo vai estar baseado no treinamento que eu tive anteriormente, o que vem a dar quase na mesma.
Mas então será mesmo que existe um grande sistema de amestragem de macacos? Um Grande Irmão Macaco? George Orwell era um macaco sábio, ou assim se diz. Na minha humilde e amestrada opinião de macaco, não poderia existir um sistema assim. Por dois motivos:
1) Não acredito em teorias da conspiração. Isso é coisa de socialista ingênuo e de capitalista paranóico. E não gosto de nenhuma dessas espécies de debilóides.
2) Um sistema do tipo teria de ser planejado por macacos. E sugerir isso, seria superestimar as capacidades deles.
Os macacos simplesmente adestram a si mesmos. Se nos damos conta disso ou não, não faz a menor diferença. Nós macacos sentimo-nos melhor quando amestrados. Mas vai saber, sou só um macaco amestrado, com comportamento e pensamentos amestrados.
O fato é que sou o bom moço foucaltiano. O bom macaco. O macaco amestrado. E sei dançar. Todos os macacos sabem dançar. Macacos gostam de dançar. Dancem macacos, dancem.
Dancem Macacos, Dancem.
Cadê?
Vida calcada nas esperanças postas no devir e no definir. Caprichos de nebulosos de um nefelibata induzido. Não pude evitar ser enganado pelo mundo. E cair das nuvens não é fácil nem agradável. Pior é passar do chão e mesmo de lá ainda ter a coragem de sonhar.
O que posso fazer além de aceitar a rota de um povo que renego dum tempo que não quero?
O que fazer além de continuar a busca? Prosseguir previamente o mesmo percurso traçado para mim, mas não por mim. Cadê a originalidade? Está nos pequenos desvios rebeldes, nas pequenas paradas reflexivas, mas principalmente na consciência lúcida e na desesperança.
Cadê o sentido? Cadê a vida? Cadê eu? Cadê tudo? E cadê nada?
Os Ombros Suportam o Mundo

Por vezes, como Atlas, me sinto suportar o mundo silencioso que não me concede nada a não ser ele mesmo e a oportunidade que tenho de existir e suportá-lo.
Os Ombros Suportam o Mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade. Antologia Poética. São Paulo: Record, 1993.
16 de julho de 2008
Quero ser mendigo
Quero ser o salmão que nada contra a corrente e que sobe o rio. Na contra-corrente do que todos querem, sou do contra, sou à margem.
O mendigo é o excluído. Excluído do lucro, da compra, da venda, da produção, da circulação do capital enfim. O mendigo é o indivíduo colocado a parte do funcionamento da sociedade. A peça desnecessária nas engrenagens da grande máquina da humanidade é o mendigo.
Mas não é isso. O mendigo faz parte da sociedade, é o aborto dela, o rejeitado, o lixo social. O mendigo está ali para servir como exemplo de fracasso e como comparativo de riqueza e poder. Afinal, o que pode acontecer de pior a alguém do que ser um mendigo? Mendigar é o fim social, a não-produção. É o chão do qual ninguém pode passar. É o que há de inferior e comparar-se a ele é elevar a si mesmo.
E é por isso que o mendigo é livre e é um rebelde. A sua liberdade é alcançada pelo desprezo e pela exclusão. Ele é o homem sem futuro. Seu único destino é a miséria. Ele renega e está livre dos objetivos, diretrizes e moralidades burguesas. Não é nem pró nem contra o capitalismo. Não é alinhado a nenhuma ideologia que não a sua. O mendigo não é nada, não deseja nada, não pode querer ser nada. E por isso tem a liberdade mais profunda que um homem finito poderia almejar. Porque ser livre é cair no vazio.
E que é comer da caridade? Isso não agrilhoa o mendigo. Apenas o vinga.
Quero ser mendigo. Quero a liberdade de não ter mais nada a perder.
3 de julho de 2008
O Poeta Pobre

Por algum motivo essa pintura me marcou profundamente. É linda realmente, mas não foi só pela beleza estética que me chamou a atenção. A pintura mostra a decadência de um artista, ou a decadência, a privação, a frugalidade, as dificuldades financeiras que acompanham o artista. Um artista sem oportunidades é um artista fracassado, um poeta pobre.
Bem, não sou poeta. Não tenho talento pra isso. Mas procuro uma carreira semelhante, no ramo acadêmico. E ao ver essa pintura veio à tona todos os meus medos de não ser economicamente bem sucedido na profissão que escolhi. Serei um dia como o poeta pobre de Spitzweg? Se serei, que seja! O serei com satisfação. Satisfação de pelo menos ser um poeta. E há até certa magia em ser mendigo e poeta...
Sobre Spitzweg: pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Spitzweg
Galeria com 185 obras de Spitzweg: www.carl-spitzweg.de/galerie.htm
23 de junho de 2008
Astolfo contra o dragão
A história gira em torno de um talvez herói que tem a missão de derrotar um maligno dragão. O enredo tem a pretensão de ser cômico, então os exageros, as ironias, o ridículo e o non-sense não devem espantar o leitor que se deixará levar por essas passagens se quiser melhor aproveitar a história.
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Benévolo, o bardo
- De que se trata a missão mesmo, meu jovem? – perguntou meu acompanhante, Astolfo, o Bravo, famoso herói. Na verdade, era eu, como bardo, quem o acompanhava para que pudesse cantar sua esplêndida vitória mais tarde.
- O de sempre, meu senhor: um dragão recentemente anda rondando as proximidades da vila. O líder local teme que vidas humanas, ou pior, vidas bovinas sejam usurpadas pela fera. Os aldeões reuniram todas as suas reservas monetárias a fim de recompensar um valoroso herói que ponha um fim à ameaça tirânica de tal criatura vil. – Eu nunca entendi o fato dos dragões, criaturas centenárias, apreciarem tanto mudar a localização de seus esconderijos de tempos
- E você veio ver como age um herói?
- Não, vim acompanhar o senhor.
- Pois então, meu jovem! – Ele tinha nitidamente uns cinco anos a menos do que eu, mas mesmo assim insistia em me chamar de “meu jovem”. – Quando soube que Astolfo, o Bravo daria cabo da besta, veio correndo presenciar e se inspirar com meu feito, não foi isso?
- Na verdade, senhor, - de súbito eu odiei aquele homem e sua total ausência de humildade e modéstia, mas ainda mantinha minha refinada educação – fui eu quem primeiro chegou a esse este lugarejo. Mas até então desconhecia a abominável ameaça. Quando fui dela informado e da vossa conseqüente vinda, enxerguei excelente oportunidade para uma composição.
- Que seja, que seja...
Não íamos a cavalo para não atrair desnecessária atenção do monstro. Caminhávamos lentamente por uma trilha perfeita no mato e por entre o descampado. Astolfo, o Bravo era realmente uma figura impressionante: corpo musculoso; pele queimada pelo sol inclemente das estradas; vasta e revolta cabeleira loura; roupas protegidas com camadas de couro e metal em algumas partes, mas curtas o suficiente para exporem sua trabalhada musculatura e que o faziam tremer no frio invernal. Portava um belo e poderoso escudo circular e carregava na mão direita uma lança, que segundo ele, era mágica. Seu sorriso era perfeito e brilhante, que ele gostava de ostentar com freqüência. A expressão de confiança na face até mesmo conseguia camuflar os dois dentes frontais postiços. Astolfo era o orgulho de qualquer personal-hero-stylist.
- Quem são eles? – perguntei por fim, após longo silêncio.
Apontava para uma chusma de lavradores remendados, sujos e maltrapilhos que nos seguia. Homens, mulheres, jovens, velhos, velhas e crianças; todos nos olhavam atentamente, como se a qualquer momento um de nós tirasse um pombo da manga, feito aqueles ilusionistas baratos. Notei que alguns traziam cestos ou sacos com refeições, para que pudessem se saciar durante o espetáculo vindouro. Estranha prática que tem virado moda.
- Ah, eles? São meus fãs. – respondeu-me distraído.
- Fãs!
- Sim, meu jovem.
- A altivez de vossos fãs reverbera a vossa fama.
Ele apenas me deu um de seus estratégicos sorrisos. Obviamente não percebeu minha ironia.
Astolfo percorria o caminho muito sério, salvo quando falava comigo. Parecia preocupado, talvez concentrado bolando um estratagema para abater o dragão.
- De que maneira pretendeis subjugar a dracônica criatura, ó valoroso paladino? – perguntei.
- O quê?
- Como matareis o dragão?
- De modo muito simples – respondeu-me sorridente, - mas também de forma astuciosa – ele esboçou a melhor expressão de sagacidade que conseguiu.
- Contai a mim vosso intento.
- Primeiro entro na caverna, porque todo dragão que se preze mora numa caverna. É provável que ele esteja dormindo...
- Como sabeis? – interrompi-o.
- Dragões gostam de dormir, principalmente quando um herói está para invadir seu covil. E pare de fazer perguntas tolas! Depois analisarei a criatura em busca de um ponto fraco – ele gesticulava intensamente, encenando a situação hipotética. – Então bradarei um desafio heróico que irá aturdi-lo de medo, e não de sono como pensam alguns... Aproveitarei o momento para enfiar minha comprida lança.
- Ooooohhhhhh! – exclamou o bando que nos seguia, fazendo uma interpretação maldosa de duplo sentido da frase.
- Deveras, vosso plano é extremamente engenhoso...
- Aham, é tiro e queda. Um dia você chega lá, meu jovem.
Já havia me irritado o suficiente com Astolfo. Fui conversar com a caterva que nos seguia sobre o dragão, sobre o estilo de vida simples do campo e outras inutilidades. Logo me vi cercado por diversos rapazotes robustos de caras alegres. Conheço o tipinho, bastante comum: jovens pobres e sonhadores, ávidos em conseguir fama, fortuna e mulheres seguem a glamourosa carreira de herói aventureiro. Pegam uma mochila e roubam a faca da cozinha de suas mães, fazendo-as de espada e saem pelo mundo. A maioria não dura duas semanas. Alguns ainda conseguem voltar esfarrapados pra casa.
- Você conhece Astolfo, o Bravo? – perguntou-me um deles.
- Não. E vós, conheceis?
- Só de ouvido. Dizem que quando Astolfo espirra, os deuses lhe dizem “saúde”!
- Dizem que o minotauro não tinha chifres antes de Astolfo atingir a puberdade. – falou mais um, todo risonho.
- Basta, basta! Já entendi! Se Astolfo peidar, vós cheirais.
Já havia me irritado o suficiente com aquela gentalha. Decidi percorrer o restante do caminho longe de qualquer companhia humana.
Após um período relativamente longo de caminhada, aproximamo-nos do fim da trilha, finalmente:
- É o fim da picada. – anunciei.
- Oooohhhh! – fez a platéia em coro, novamente subvertendo o sentido.
- E exatamente como vós falastes, há realmente uma grande gruta à frente – me dirigi às proximidades da caverna e notei sinais no chão. - E vejais aqui: imensas pegadas! Certamente pertencentes ao dragão.
- Tem um dragão mesmo? – Astolfo estava pálido. Parecia extremamente surpreso.
- E o que é que esperáveis?
- Ah, sei lá. Aqui no meio do mato é tão sem graça. Sabe como são esses roceiros. Tendo uma garrafa como companheira noturna de tédio, eles enxergam de tudo: lobisomens, dragões, discos voadores... mas um dragão de verdade! ‘Tô fudido!
- Oooohhhh! – desaprovou a platéia. Um delicado rapazinho deu uma insinuada piscadela a Astolfo.
- E você! Não poderia ter arrumado testemunhas menos maliciosas? Ô gente depravada! – reclamou o herói.
- Ué! Não são vossos fãs?
- Ahn... Er... Bom... Devem ser. Fãs seus é que não são.
Ponderei por não retrucar a essa grosseria, pelo bem da minha integridade física. Porém incuti-lhe:
- Agora que sabemos que se trata de um dragão verdadeiro, é um alívio podermos contar com um herói verdadeiro.
Astolfo me deu como resposta um de seus sorrisões confiantes. Ele não era mesmo bom em perceber ironias. Dirigiu-se à entrada. Titubeou.
- Não estais com medo, estais? – provoquei.
- Medo? Medo! – ele se virou na minha direção furioso. – Então não conhece a fama de Astolfo o Bravo? Astolfo, o que chuta pedras descalço. Astolfo, o que discute a relação. Astolfo, o que come pastéis de rodoviária.
- Sim, vossa coragem é lendária. Desculpe-me, foi apenas uma brincadeira.
- E é só por isso que você ainda está vivo. Isso e o fato de que matar bardos dá azar. – Pôs-se a imitar uma galinha, gesto típico para afastar a má sorte. Pensei, rindo comigo, que se existisse um animal ao qual Astolfo pudesse ser associado, esse animal seria o que ele estava imitando naquele momento.
O herói começou a analisar a situação. Examinou as pegadas, mediu vagamente o diâmetro da entrada da caverna, observou as condições do relevo em torno e verificou a direção do vento. Ele realmente merecia um Prêmio de Teatro.
- E então?
- É mesmo um dragão. E dos grandes! Recomendo que fique do lado de fora, meu jovem. Pode ser perigoso.
- Se eu aqui permanecer, de que maneira poderei anunciar os detalhes do vosso fabuloso triunfo?
- Vocês poetas sempre mentem mesmo. – resmungou ele, mais para si do que para mim.
- Mas nunca sobre Astolfo, o Bravo. – respondi malicioso.
Ele pareceu ficar sem argumentos e se resignar definitivamente a enfrentar o dragão. Estampou seu último sorriso e adentrou o covil da fera, seguido a certa distância por mim e pelos espectadores, que agora mastigavam nervosamente algum tipo de alimento ruidoso.
Avançávamos da seguinte forma: Astolfo à frente, em posição de ataque e alerta; mais atrás eu com meu instrumento musical; e por fim a multidão que iluminava a cena parcamente com algumas tochas.
- Quereis que eu declame algo?
Interpretei o silêncio como uma afirmativa e iniciei uns versos improvisados no meu alaúde:
- Nas brumas da morte ele entrou, o mais bravo dos bravos,
Tendo apenas a coragem como lume.
No silêncio tonitruante, onde o medo dilacera as vísceras
Antes mesmo de qualquer ataque.
Que terrores indizíveis aguardam ao virar da próxima curva?
A criatura fatal, pronta a arrancar o último suspiro
Com um único golpe de dor lancinante...
- Quer calar a boca, pô! Não tá ajudando. – gemeu a voz do herói em reclamação, vinda do breu.
- Oh, perdão.
- Vai logo cagão! - veio um grito da platéia.
- Quem disse isso? – exigiu Astolfo. – Repete se for macho! – berrou
Naquela quietude tumular
Quando nos recompomos, vimos o guerreiro apoiado em sua lança, tremendo.
- Onde está o dragão? – perguntei apavorado.
- Fugiu! – respondeu triunfante.
- O que é isso em vossas calças? – indiquei uma mancha comprida no vestuário dele, que começava a lançar pingos no chão.
- Fui ferido. – explicou-me sem jeito.
- Na genitália!
O “oooohhhh” da platéia dessa vez foi em piedade pela dor alheia. Os homens rapidamente trataram de proteger suas partes com as mãos.
- Que cheiro de urina é esse? – indaguei intrigado, farejando o ar. Gesto que foi seguido por todos. Astolfo acelerou o passou e rapidamente avançou em direção ao âmago da caverna.
Prosseguimos a passos tão curtos que nossos calcanhares tocavam a ponta dos dedos do outro pé. Foi então que uma forte e extremamente úmida lufada de vento nos atingiu. As chamas das tochas se extinguiram e nossos olhos viam apenas trevas. Ouvimos passos poderosos e uma respiração alta e ofegante. Então escutamos metal ser largado no chão e o som de corrida rumo à saída: Astolfo, o Bravo fugira.
Fiquei em estado catatônico, paralisado esperando pela baforada que me traria dor e morte. Mas ela não veio. O que veio foi uma risada. Uma risada que lembro até hoje. E que ainda hoje me deixa furioso:
- Ha-haiiiiiii-hi-hi!
Fortes luzes se acenderam por toda a parte. Nos breves momentos de fotofobia eu não distinguia nada.
- Sorrrria! Você está na “Pegadinha do Dragão”! – a platéia assobiava e aplaudia efusivamente.
À minha frente, quando recuperei a visão, vi um homem sorridente (mais um!) vestido com smoking e cartola roxos.
- Dê um tchau para a mamãe, você está na IMVITE! – ele me segurou pelo ombro e me moveu com uma violência gentil. Apontava para um homem barbudo, vestido com pijama de estrelinhas e chapéu pontudo, que segurava uma grande esfera de energia negra entre as mãos.
- IMVITE? – repeti bestificado.
- Exatommmm! IMagem VIsual TEletransportada, estamos-trabalhando-num-nome-melhor... Com ela, você pode transmitir uma imagem de qualquer lugar para qualquer lugar do continente através de um artefato mágico receptor!
- Qualquer lugar? – o espanto havia me deixado embasbacado e parecia haver drenado minha capacidade de formular frases por conta própria.
- Simmmm! Caros espectadores, enquanto nosso pato... Digo... Convidado se recupera, vamos ao intervalommm.
O homem do pijama apontou a esfera na direção de um dragão roxo e borrachento (fantasia que algum idiota vestia) num canto. Dançavam ao redor do falso dragão, as duas mulheres mais voluptuosas que eu já vi em toda a minha vida.
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Após os acontecimentos daquele dia, passei muito tempo em terapia psicológica. E os altos preços das consultas me fizeram entender o porquê da profissão ser atualmente tão procurada por jovens estudantes em busca de dinheiro fácil.
