9 de junho de 2012
Elegia à ausência
Há um ano, eu, um homem duro de uma raça de homens duros, chorava feito uma criança inconsolável. Perdia um dos meus primeiros amores, minha primeira inimiga, perdia um pedaço da minha memória, da minha infância, da minha vida. Perdia a minha irmã. Lá estava ela acomodada, mas ainda era tão bonita, tão linda, tão jovem. Perder aquela beleza para sempre me comoveu como nunca nada me comoveu antes. "Tão linda, tão linda" eu repetia. Lembrarei sempre daquela noite fria e daquele dia nublado, no qual até mesmo o sol havia se retirado, junto com a beleza e vivacidade que sumiram para sempre. O mundo ficou um pouco menos bonito naquele dia.
Talvez o acaso nos tenha feito irmãos. Mas foi por vontade que permanecemos irmãos. Desde as mentiras da vida até a tristeza de "dar a volta por cima". Pudemos, juntos, aprender um com o outro e melhorar-nos. Porque passando metade de uma vida juntos, é impossível que um não seja um pouco como o outro, mesmo que fôssemos tão diferentes. E isso era bom, pois um complementava o outro e ensinava. Ela era animada, sorridente, simpática, extrovertida e inconsequente. O que eu nunca fui, e isso era o que me fazia feliz nela. Ela falava que na divisão das virtudes ela tinha ficado com a beleza e eu com a inteligência. Isso era, em parte, uma inverdade. Embora não fosse estudiosa, era uma pessoa muito esperta e sagaz. Tinha a inteligência que me faltava, a inteligência da vida. Mas sim, ela era linda! Uma das mulheres mais lindas que eu já conheci.
Na escola era melhor manter distância, porque aprendemos que nerds e patricinhas não se misturam. A menos que sejam irmãos. Num filme adolescente, ela seria a vilã, mas na vida real ela foi a heroína da minha infância. Claro que nem tudo foram rosas. Se ela fosse uma, seria uma cheia de espinhos. E eu pude sempre odiá-la. Como irmãos que amam se odiar e odeiam se amar. E brigamos ostensivamente, de forma violenta, de ambas as partes, às vezes. Para depois, adultos, lembrarmos daquelas brigas com sorrisos e falsas promessas de revanche.
No último recado que me escreveu antes de deixar a todos nós, disse que eu seria sempre um modelo de homem pra ela: "aquele que fala o que pensa". Ainda me emociono quando leio, porque é verdade. E porque me consola ela entender, depois, que todas as vezes em que fui chato, certinho, careta, ranzinza (ainda criança), era a minha forma de tentar protegê-la. Porque eu era o mais velho, não só pela idade (3 meses a mais), mas também pelo temperamento e comportamento: consciente, responsável, chato. Que eu sempre me preocupei. E acuso-a de ser uma causa das minhas primeiras precoces rugas. E para mim ela também será sempre um modelo de mulher: aquela que faz o que sente. Até o fim.
No mesmo último recado, disse: "não é preciso ter o mesmo sangue para ser irmãos, nem estar perto para amar". Tem razão, nunca foi preciso o mesmo sangue para sermos irmãos. E nunca será preciso que esteja perto. Só queria ter dito antes uma palavra de carinho, plena de significado, que minha dureza não permitiu: um "te amo". Espero que tenha sabido disso antes do fim, embora eu pouco me permiti demonstrar.
Por fim, na minha estranheza de vincular pessoas a personagens literários ou trechos, poemas, ou qualquer coisa do tipo, para mim, minha irmã e o poema abaixo do Mario Quintana estão para sempre indissociáveis:
Torre Azul
"É preciso construir uma torre
- uma torre azul para os suicidas.
Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
É preciso construir-lhes um túnel
- um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto-mar perdida.
É preciso construir uma torre…
É preciso construir um túnel…
É preciso morrer de puro,
puro amor!…"
- Mario Quintana
-----------------
Adeus, Piti. Descanse em paz.
6 de fevereiro de 2012
Carta ao Amor Distante
Entretanto, tua distância foi próxima desde que deixou de ser proximidade. Sempre que te busco, é em mim que te encontro. Tão apaixonante quanto sempre. Quando tenho medo, sinto tua mão na minha. Quando rio, é o som da tua risada em meus ouvidos. Quando a brisa me toca, imagino teu sopro brincando nos meus cabelos, como costuma fazer sorrindo provocante. Quando chove; ou quando ouço aquela nossa música; ou quando uma frase recorda uma piada que temos entre nós; quando anseio pelo teu ávido coração que ecoa pulsações pelo teu corpo, é o meu próprio que encontro, que se agita e se acalma no meu peito.
E quem diria que iríamos ter que errar tanto até que nos encontrássemos. Errar de alma em alma, à procura de outros e de nós mesmos em outros, encontrando sorrisos e lágrimas que fizeram covardes nossas próprias intenções. Quem diria que teríamos que errar tanto até nos encontrarmos. Errar contra nós mesmos. Erros que tornaram demasiado cautelosos nossos semblantes. Até nos encontrarmos. Para então podermos errar juntos.
Distantemente tão próximos, impossível agora imaginar dias sem olhar sempre novamente teus olhos e saber então viver na proximidade do meu amor distante.
Com todo meu amor, distante, te remeto esta carta. A ser entregue por suaves e coloridas borboletas, com o pedido caprichoso de pousar em teu estômago.
30 de agosto de 2011
O Sentimento Amoroso. E Chagall.
Nefelibata desiludido preso ao chão dos cuidados do ceticismo. Desconfia. Teme. E ignora. Ainda que apaixonadamente içado, resiste. Sorri felicitadamente, sem alçar os pés.
Até que...
Para ti, palavras são mais do que o vento que compõe o som. Palavra não evanesce. Palavra é saliva. Palavra é sangue. Palavra é espírito e matéria. E isso são coisas que não podem ser desperdiçadas. Palavra é raridade. Por isso preciosa. Palavras são confissões, trocas, atestados, promessas, verdades. Cada palavra carrega sentidos e intensidades. Não podes jogá-las irresponsáveis. Tem de dar direção e intenção a elas. És o silencioso asceta da comunicação. Pois dar a tua palavra é dar o que tens de mais caro. Com a palavra, proferes a ti mesmo. E te entrega. És tu mesmo palavra.
Por isso titubeia. Tergiversa. Adia. Fica no chão, não levita ao lado da tua amada. E o pior: a segura no solo. Não consegue dizer sem ter a certeza. Sem estar certo da tua promessa e das tuas ideias. Está disposto, mas quer ser o mais possível veraz e franco. És um homem duro, mas reserva a ti mesmo a pior rigidez. Admite, sem nocivas consequências de estima, que outrem seja maleável, inconstante, indeciso, mutante. Mas não te permite pensar que até tu pode não ser mais o mesmo se assim desejar. Aos outros todas as permissões, a ti retidão absoluta. Uma vez tomada a decisão não poderá voltar? Deve te elevar até os confins e realizar o mais difícil: SE permitir.
Quem disse que as metamorfoses são permanentes? Quem falou que não se pode voltar a ser crisálida? Se os edifícios alheios podem desmoronar e não durar, porque as tuas construções deveriam durar para sempre? Nem todos os prédios são perenes. Sobre boas bases se constroem boas construções, ainda que abaláveis. Construa.
Ou acaso ignora em teu peito o ar que escapa? O coração que acelera e ferve teu sangue? O pensamento que se perde num rosto? As mãos que relembram? Um corpo que pede e uma alma que anseia? O pneuma que recupera? Um sopro que sustenta e embala e anima? Anima alma.
Afirma o que age em ti, cumpre tua vontade. Torna-te palavra.
Voa, voa, voa. Segue a borboleta. E anuncia.
Te amo.
24 de maio de 2011
Cerâmica
Em campos de folhagens laminadas
Onde passeio as mãos entre o capim distraído.
E do meu suorsangue fertilizado
Florescem papoulas e crisântemos.
Sem mariposa, alma alada.
Sem inseto, pneuma ou psiquê que voeje contente por sobre a colheita onde os pássaros têm o seu simpósio.
Sem cereal, azeitona ou vinho a armazenar a ânfora decorada por Helena.
Ânfora sem alma para preencher.
Estética apagada na fluidez do rio onde foi abandonada para os arqueólogos do futuro.
E rio, rio, rio...
Até que reste somente a argila dura.
Recipiente preenchido de memórias,
Que são nada.
Vazio.
Mas ainda assim tapado.
Meu barrocorpo é tudo que sou.
Mais não há.
Ou há.
Loucuras de artistas esquecidos que foram e já não são mais nem serão outra vez.
Sou todo matéria.
Sou todo certeza.
Cerâmica mil vezes estilhaçada por crianças inconsequentes
Correndo, ávidas pelo jogo.
Copiosamente reconstruído dos cacos
É preciso que habitue ao molde das delicadas mãos da ceramista enquanto o mundo gira impulsionado por ela.
Maldita
uma lembrança do futuro que já vivemos
ou viveremos.
Assim, ao longe, és maldita.
Maldita por não mais me reconhecer em meus olhos
mas me fazer reconhecer nos teus.
Maldita por estranhar o que se destrói e reconstrói em meu peito.
Maldita por ter de refazer os meus planos.
Deliciosamente maldita.
Assim, ao longe, és uma imagem
pronta para me aceitar também e aquém do teu corpo
n'alma.
E enquanto tocam os sinos do mundo,
extasiado entro em tua vida.
17 de agosto de 2010
Passagem
Trem que parte.
Navio que apita.
Outono que chega
e cai do alto das árvores.
Enquanto tu ficas, imóvel e melancólica,
à espera.
Até que eu, perdido, te encontre enfim.
E possamos embarcar juntos
num vagão sem destino
com janelas para o mundo.
23 de novembro de 2009
Nada tenho a te oferecer
Nada tenho a te oferecer, flor do meu jardim. Nada a não ser o calor da proximidade no inverno ou o abrigo do sol. Nada além disso. Nada a não ser observar a tua beleza, te admirar durante horas, dias, anos. Te ver e me encantar com tua beleza desde o lindo botão que eras até o teu desabrochar, quando te tornaste a mais linda flor do meu jardim. E continuar te olhando, sem parar, sem cansar de contemplar o que de mais belo já tocou meus olhos. Prosseguir te olhando até que o céu escureça e clareie de novo mais de vinte mil vezes, quando o tempo cobrará o seu preço em nós e aos poucos formos murchando e uma a uma perderás tuas lindas pétalas suaves. E continuarei te olhando e te acharei bela até o final.
Nada tenho a te oferecer, bichana manhosa. Nada a não ser acariciar contente o teu pelo macio. Nada a não ser dividir meu alimento contigo. Nada a não ser o conforto aquecido do meu colo quando estiveres cansada, com sono ou carente. Nada além disso. Nada a não ser ir onde quiseres, desde que retornes para mim e tenha apenas um leito onde repousares. E se um dia fores e não voltares, ficarei preocupado e te irei buscar. Mas deixarei que vás, se assim quiseres, com lágrimas apenas em meu coração.
Nada tenho a te oferecer, pequena criança. Nada a não ser toda a ternura e afeto de que disponho. Nada a não ser um sorriso de complacência. Nada a não ser o perdão se errares ou a minha retratação se eu errar. Nada além da minha proteção, do meu abraço quando estiveres triste, frustrada ou com medo. Nada além disso. Não tenho nada a te oferecer, a não ser a promessa de que não conhecerás a solidão nem o desamparo enquanto segurares bem firme a minha mão.
Nada tenho a te oferecer. Perdão se em troca deste nada que te ofereço, peço a enormidade de me amar.
4 de outubro de 2009
A Morte da Estrela
Tive eu, já certa vez, uma estrela. Tão fugaz e efêmera que nem sei quantas Eras passaram antes que eu a perdesse. Estando, preguiçoso amador, a fitar o firmamento pontilhado, vi, após longo tempo, uma estrela que nunca havia visto me sorrir o mais encantador dos sorrisos estelares. Todas as noites, então, admirava a estrela enquanto ela sorria.
A admirei tanto que minha alma se perdeu, alçou o céu noturno até beijar a estrela por tantos segundos que o Universo se manteve inalterável. E terminou. Minha alma caiu com o perfume entranhado e a estrela sumiu.
Foi embora, deixando para trás o rastro dourado da cabeleira meteórica que ainda brilha com saudade em meus olhos.
Não, não caiu, vindo ao meu encontro, incendiando a minha vida em poeira cósmica. Impassível que era em abandonar as alturas das suas certezas. Não, não morreu, minha alma ainda fareja o seu perfume.
Agora, nas noites de insônia, que são todas, com cem rugas a mais no rosto, observo o céu. E toda estrela que sorri me alegra. Até perceber que não é ela a minha estrela sorrindo. E prossigo a minha busca carrancudo.
17 de agosto de 2009
Ulisses desamarrado
E os olhos entre o céu estrelado,
Cria forma, tu, celeste sereia
Tomando meu coração com teu canto
Até que todos os sons do mundo
São tua voz de paraíso chamando meu nome.
Textura de nuvem, brisa suave, visão do trigo maduro.
Meu coração é sempre e cada vez mais teu,
Através de um oceano de alma incendiada.
Já não vivo senão embriagado em teu perfume.
Sou serei o refúgio onde aportam tuas mágoas, lágrimas e cansaços.
Sou serei o eco dos teus risos, a sombra dos teus passos
E o amanhecer dos teus coloridos olhos.
A habitação aquecida das frias noites de inverno.
Reconfortante aragem que sussurra...
Te amo.
14 de junho de 2009
Sobre o Amor e o Amar
Mas que não se engane. Tudo isso não pelo outro, mas por si mesmo. Não é ao outro que se ama, mas o amor que se sente por tal pessoa. Se ama, ama somente o amor que por ela sente, não ela em si. A condição do outro também amar só serve para manter o amor que tem por ele e alimentar o egoísmo. Em profundidade, a reciprocidade do amor em nada interfere na agradabilidade do amar. Ama-se o amor que sente-se e exige-se o amor para não ser humilhado por oferecer algo e nada receber em troca. Quem é capaz de amar por muito tempo e não ser correspondido? O amor só é durável se haver a troca de amores. Se se elege alguém como depositário de amores e atenções, é humanamente justo que se seja também amado.
O amor, assim como a felicidade, requer egoísmo. É preciso pensar em si mesmo para amar e ser feliz amando. Se me gastar em preocupações alheias, não serei feliz. Se me anular em função do objeto de amor, não serei feliz e não amarei por muito tempo. Graças a esse egoísmo profundamente intrínseco e a essa ambigüidade entre abdicação e retorno, o amor é um sentimento humano por excelência, criatura contraditória e egoísta.
O ciúme, a mais abjeta qualidade humana, provém exatamente desse fato e o comprova. Se amar é também esperar retribuição, o ciúme é a possibilidade do egoísmo não saciado. Isso e, no entanto, amor sem ciúme resume-se a mero uso, a utilização do outro, a egoísmo sem amor. O ciúme, irmão (não gêmeo) da posse é inerente e constituinte do amor.
Se rebaixar ao subnível dos Homens para amar e aí alcançar a felicidade e ador mais avassaladora, no ápice do que é ilusório, mundano e humano.
18 de maio de 2009
Fantasma
Que és? Súcubo diurno ou anjo de luz dourada?
Assombras meus dias e minhas noites com tua imagem onírica
E permanece calada. Por quê?
Será por que também eu emudeço diante de ti?
Tua boca é o silencioso túmulo do meu amor
E teus olhos tristes o reflexo da minha dor, que também é tua.
De repente, vais embora.
Deixando para trás perfumadas pegadas de jasmim
E os esvoaçantes cabelos, feito véu de ouro das núpcias adiadas.
Fica somente o porquê. Mas não o porquê de vires.
Isso o sei bem, desde que nasci, agora percebo:
Vieste para me fazer ver além dos meus olhos, me emprestando os teus,
A tal ponto que ter vida e ver os teus olhos se tornassem a mesma coisa.
E eu seria feliz.
Mas por que, por que foste embora?
Tão triste e sem palavras?
Também eu não pude dizer nada.
Serei eu
Fantasma para ti,
Assim como és fantasma para mim?
26 de fevereiro de 2009
Simas: Necrológio
Vou sempre lembrar dos latidos histéricos quando eu voltava pra casa, não importava o tempo que eu passasse fora, cinco dias ou cinco minutos. Quando chover e cair trovoadas, e eu não ouvir o barulho de patinhas arranhando a porta, de um cachorro medroso, querendo entrar em casa pra se esconder debaixo da minha cama pra dormir seguro. No dia que isso não acontecer, ficarei triste. Vou me lembrar de quando mancava quando o tempo estava para chover, numa incrível previsão do tempo que superava a de qualquer meteorologista experimentado e equipado. Vou me lembrar das fanfarronices de valentão que às vezes acabava em surra de cachorros maiores. Vou me lembrar da companhia aos meus pés enquanto eu lia. Vou me lembrar simplesmente do pêlo totalmente negro que foi clareando no tempo.
E agora? Em quem vou limpar os pés antes de entrar em casa? A quem vou dirigir meus palavrões amigáveis? Quem vou carinhosamente xingar? E os tapinhas de eco oco, quem vai receber? E as declarações de amor, ridículas e patéticas, que só um cachorro ouviria sem rir ou ter dor de barriga, pra onde vão?
Um abanar de cauda (que balançava toda a traseira junto) ou um olhar maroto de canto era só o que eu precisava pra mudar do pior humor para um sorriso e uns afagos. Nos momentos em que estive mais só, nunca estive totalmente só. Obrigado, meu amigo.
Um pedaço de mim se foi. Um tanto de alegria a menos no espírito. Adeus Simas.
Um tempo qualquer também chegará o meu tempo se ser eterno no barro. Até lá.
9 de dezembro de 2008
Revelação
Fugindo às celas da mente,
corro pelas ruas, vestido de crueldade,
cuspindo, contra o vento, escarros de amargura.
E para todos os seres sou ao frio aço semelhante,
mas para meu amor sou apenas ternura.
Cansado de percorrer solitário
os desertos sombrios da Existência,
me deparo com tua paradoxal presença:
doce, comovente e perturbadora, que
desequilibra, derruba e faz levitar.
Entre lágrimas, sorrisos e dúvidas
um amor desponta tímido e, como o sol,
dissipa todas as trevas.
Confere sentido, calor, alegria e propósito
ao árido caminho de um construto.
que tens o semblante refletindo meus sonhos e que
rouba a minha alma num beijo.
30 de janeiro de 2008
Mona: necrológio
Hoje se completam 3 meses que minha cachorra Mona faleceu. Porque não escrevi nada antes? Talvez por querer um tempo para pensar no que escrever, sem que os sentimentos prejudicassem. Agora vejo que foi bobagem. Teria sido muito mais verdadeiro.
Pensei em escrever milhões de coisas que ocupariam muito espaço, mas chegando aqui percebo que nada que eu escreva vai chegar perto de transmitir o afeto que eu devotava a ela. Opto, portanto, em nada escrever. Ela iria entender. Sempre me entendeu sem precisar de palavras.
O que posso dizer, relacionando esse fato comigo é que percebi que meu choro não foi por ela morrer. Isso acontece com todos. É natural, inescapável. O choro e o pesar foram por mim. Por eu não saber que nunca mais teria ela, que eu amei, por perto. O choro de morte é o mais egoísta de todos.
Adeus Mona. Repouse plácida sob a relva, e leve contigo meu afeto mais puro e minha dor mais profunda.


