Mostrando postagens com marcador Diário do Eloqüente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Diário do Eloqüente. Mostrar todas as postagens

2 de agosto de 2013

A erudição e o cinismo

Foi numa tarde de calor no inverno gaúcho que um dos maiores eruditos desconhecidos da ciência me encontrou. Esse é só um relato, todas as genialidades contidas não são minhas, eu sou apenas o mensageiro.

"- Há 23 anos que eu não venho aqui.
- Faz tempo!" - depois dessas duas palavras o diálogo se tornou monólogo, monografia, tese, exposição de fatos científicos incontestáveis.
"- É, faz. Naquela época nada disso existia, nem essa rua aqui."
Eu só consenti.

"- Os tempos são outros. Daqui 30 anos, até 2050 não vai mais existir nenhuma pessoa na Terra" - diante desse fato aterrador afirmado de maneira completamente tranquila (fácil pra ti, né, velho, não vai durar nem mais 5 anos... mas e eu?), arregalei o olhos e me virei pra ele novamente interessado pelo assunto, não sabendo com o que eu me surpreendia mais, pelo Apocalipse breve, ou se pela incrível capacidade matemática do idoso: 2013+30=2050...

"- As mulheres têm cada vez menos filhos: no começo do século toda mulher tinha uma média de 8 filhos, depois 4 filhos, aí 2, hoje está um número de 1.8, logo não vai ser nenhum" - muitos dados precisos, dados estatísticos de onde? "- A produção de espermatozoides cai cerca de 20 mil por ano" - Só se for os teus, do teu saco velho, né, meu senhor? "O homem não tem mais desejo, antes eram os homens que atacavam as mulheres, hoje são elas que atacam" - nesse ponto ele faz o gesto garra-do-tigrão e dá um sorrisinho de cumplicidade, eu sorrio de vergonha alheia; "- Hoje as mulheres estão com os corpos cada vez mais atraentes, mas não adianta, os homens não têm mais tanto desejo", e aponta para a mulher curvilínea de calça suplex ao lado, que lança um olhar destrutivo ao velho tarado enquanto eu viro a cara de vergonha, finjo que não conheço e penso em dar um passinho pra longe.

"O mundo vai acabar, isso é fato comprovado, a Terra tem poucas décadas de vida, e depois o sol vai sumir, tudo isso vai extinguir a espécie humana, isso já aconteceu antes", me confessa o velho sábio placidamente e em tom professoral, "Nossa civilização não tem mais do que 300 mil anos..." - novinha nossa civilização, né? Isso mesmo, Trezentos-puta-que-pariu-mil-anos! Onde este senhor esteve escondido com informações tão inovadoras, que desmentem os mais aclamados registros arqueológicos em mais de 292 mil anos de civilização? Arqueólogos de araque! "A civilização anterior acabou há 500 mil anos, e a outra há 700 mil anos" - pronto, morri. Se bem que foi mesmo muito triste quando a civilização das preguiças gigantes extinguiu-se...

"O mundo vai acabar, então os seres humanos vão pra lua. Eles já foram, a lua é um satélite artificial da Terra, é oca" - opa, uau!, espera aí, deixa eu processar essa informação toda sorrindo o meu melhor sorriso cínico, aquele que não é possível diferenciar se é um sorriso de deboche, de animação ou apenas um esgar estomacal; "- Quando os americanos foram à lua, os moradores de lá (da lua), mandaram eles de volta dizendo 'não queremos vocês aqui, vocês têm fome, guerra, não precisamos disso aqui'" - esses lunares, tão antissociais... mas só para não achar que o sapiente senhor estava inventando, os dados científicos, comprobatórios: "China, Índia e Coreia do Sul enviaram recentemente satélites para pesquisar as explosões solares", oi? Quem? Quando?, "e descobriram que elas (as explosões) atingem a Terra e todos os planetas, menos a lua, então é claro que tem um campo de força, porque a lua é oca e é um satélite artificial. Foi a outra civilização antes da nossa que chegou lá e foi a primeira que colocou a lua lá" - Aí deu, chega, tanto conhecimento é demais pra mim!!! Eu só sorri cinicamente e pensei em chegar logo em casa para transcrever toda essa sabedoria luminar e mostrar isso ao mundo, o mundo PRECISA saber disso!

Isso tudo aconteceu quando eu estava a caminho de casa e o senhor a caminho de uma consulta com um médico, um médico muito bom que não cobrava pela consulta, só pelos remédios. Uns remédios fitoterápicos meio caros, mas muito bons, que resolvem! Longe de mim querer vincular alguém de tão vasto cabedal iluminado com gente que vai a médico-que-não-cobra-consulta-só-cobra-por-remédios-fitoterápicos-que-ele-mesmo-produz-e-que-custam-um-pouco-caro, só estou expondo os fatos.

20 de junho de 2008

Diário do Eloqüente (20/06/2008)

Loquaz diário, hoje à noitinha eu estava caminhando no centro da cidade vizinha para espairecer e não ser importunado por conversas desnecessárias no local onde resido.

Quando eu andava distraído e perdido em pensamentos fugidios, um carro foi parando ao meu lado vagarosamente. A princípio eu fiquei desconfiado. Poderia ser um seqüestrador ou um tarado me visando...

O carro pára e de repente uma voz ecoa de dentro do veículo perguntando:

- Oi! Tu sabe como é que eu faço pra chegar na prefeitura?

- Não...

Percebi a expressão de decepção do motorista.

- É que não moro aqui. - completei.

Gosto de fornecer a informação sempre completa. Ainda que isso me exija um esforço quase sobre-humano de articulação verbal.

24 de março de 2008

Diário do Eloqüente (24/03/2008)

Loquaz diário, hoje fui ao banco. E como de costume me deparei com aquela quilométrica fila até o solitário a abatido caixa em funcionamento.

Naquela espera tediosa, uma senhora tenta iniciar uma interessante conversa comigo. Comigo. Logo comigo!:

- Calor hoje, né?

- Ô!

- Mas tem umas nuvens aparecendo e o sol já começa a ficar encoberto. Será que chove?

- Talvez...

- Eu vi no noticiário do meio-dia, quando passou a previsão do tempo que ia chover hoje a tarde.

- ...

- Tomara que chova mesmo, não dá mais pra agüentar esse calorão que não pára! E essa seca no interior do estado ainda por cima. Seria bom se chovesse, né?

- Aham.

- Mas teria que ser uma chuva consistente que molhasse bem o chão e desse uma refrescada. Porque esse calor danado! Ainda mais aqui no vale que não tem nenhuma brisa! Tudo culpa do Efeito Estufa, só pode. Blá-blá-blá...

E ela prosseguiu nesse falatório relevante durante todo o torturante percurso até o caixa.

Ainda bem, diário, que temos conversas tão interessantes como a desta tarde no banco para nos livrar do tédio cotidiano.

12 de novembro de 2007

Diário do Eloqüente (12/11/2007)

Loquaz diário, hoje peguei um ônibus. Me sentei. Pouco depois, uma bonita moça se aproximou e perguntou, apontando a poltrona vazia ao meu lado:

- Está ocupada?

- Não. - respondi.

- Posso sentar?

- Pode.

- Obrigada!

Ela ficou afim de mim, é claro. Mas era tímida demais pra tomar uma iniciativa.

10 de setembro de 2007

Diário do Eloqüente (10/09/07)

Loquaz diário, hoje tive uma exaustiva conversa na padaria:

- Bom dia, posso ajudá-lo?
- Pode.
- …
- …
- O que vai querer?
- 4 pãezinhos.
- Mais alguma coisa?
- Sim.
- O quê?
- Presunto e queijo.
- Quanto?
- 100 gramas.
- De cada?
- Isso.
- Obrigada, tenha um bom dia.
- Aham.

Conversa demais por um dia.