3 de maio de 2011
Um Conto sobre Piedade
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O inverno se aproxima do fim,mas não sem deixar conseqüências.
À tarde o homem volta para casa, uma cabana simples, mas aquecida e reconfortante. No fogão, a esposa prepara a refeição, os unguentos e infusões para o filho, numa cama improvisada junto à lareira. Já há vários dias a criança adoeceu e a enfermidade só faz piorar.
Começou como uma gripe, doença comum na estação, depois a tosse violenta, as manchas pelo corpo, o catarro com sangue e por último, a mucosa purulenta na boca e nos olhos. No momento o garoto dorme, é assim que passa a maior parte do dia, permanece pouquíssimo tempo acordado. Nos raros momentos em que se mantém desperto, sua mãe tenta fazê-lo comer, mas ele sempre recusa. A grave inflamação da laringe impede a alimentação e a fala. As dores e a atrofia muscular fazem com que a criança permaneça em paralisia quase completa. Às vezes, alivia-se de suas necessidades fisiológicas ali mesmo na cama. Entretanto, esforço algum é demais para sua dedicada mãe, que cuida com zelo de seu filho doente na esperança de que ele se recupere logo e volte a brincar com as outras crianças da vila.
- Continua a preparar essas receitas? – pergunta o homem esfregando as mãos para espantar o frio.
- Eles disseram que pode ajudar. – responde a mulher, se referindo aos curandeiros que vieram examinar o garoto.
- Eles nem sabem o que nosso filho tem! – fala com desprezo daqueles que, para ele, não passam de charlatões aproveitadores com menos conhecimento medicinal que sua avó.
Na cama o menino se contorce em convulsões de espirro e tosse. Quando a criança se acalma, a mulher tenta iniciar uma conversa sobre a doença.
- Acha que pode ser aquela doença que está atacando as terras depois do rio?
- Os curandeiros acham que não. - rebate o homem secamente.
A mulher se cala com a resposta. Logo após carrega uma xícara cheia de chá fumegante até o leito do filho. Espera ele parar de tossir e o desperta com afagos. Oferece o chá, mas ele nega. Força a bebida, que ele não toma, derramando parte do líquido nos cobertores. Com uma careta de dor, ele volta a dormir. Enquanto a mulher retorna ao fogão com o recipiente quase cheio, o homem retoma a conversa com ar preocupado.
- Hoje, quando saí pela manhã, vi um corvo pousado no nosso telhado.
- Oh deuses! Mas hoje é noite de lua em Foice! – apavora-se a mulher, deixando cair a xícara de chá que molha o chão de madeira.
Foice é a fase lunar em que a lua, por cinco dias, vai diariamente diminuindo, formando um “C”, até ficar em completa treva. A foice é também o símbolo sagrado do deus da morte.
- Isso mesmo. E você sabe o que isso quer dizer. - constata o homem tristemente.
O povo local é extremamente supersticioso. Seu cotidiano é repleto de augúrios, rituais para trazer sorte e afastar o azar, ou mesmo atos que devem ser evitados, pois são de mau agouro. Entre as diversas crendices, uma delas diz que quando um corvo pousa no telhado de uma casa em dia de lua em Foice, significa que um dos moradores irá falecer em breve.
- Não pode ser! Por que nosso filho?! Tão jovem. – a mulher prossegue o lamento num desespero cada vez maior. – Precisamos de um sacerdote! Temos que achar um! Nosso filho precisa da bênção de cura dos deuses! – lágrimas descem pela face, ela sabe que é quase impossível encontrar um clérigo num local ermo e afastado como aquele em que moram.
- Eu encontrei com um clérigo hoje. – sussurra o homem sob os gritos desesperados da esposa.
- O quê? – pergunta ela repentinamente suave com lágrimas no rosto ao ouvir o marido.
- Encontrei com um clérigo. – repete sem alegria.
- Encontrou? Que sorte! Você falou do nosso filho, não falou?
O homem fez que sim.
- Ele pode ajudar? – pergunta a mulher ansiosa.
O homem repete o gesto com a cabeça.
- Ele virá aqui hoje? – prossegue interrogando.
Ao sinal afirmativo do marido, a mulher se alegra. Espera em silêncio ao lado do filho por alguns instantes, mas a ansiedade supera a paciência e ela volta para seus afazeres domésticos a fim de encontrar uma distração. Porém o homem não esboça felicidade alguma, apenas permanece sentado na poltrona com ar pensativo. Na cama próxima à lareira, o menino tosse como se os pulmões fossem saltar pela boca. Após algumas horas, batidas na porta.
- Pode entrar! – autoriza o homem em voz alta, levantando-se da poltrona onde aguardava o visitante.
A porta se abre. De fora entra um homem com manto e capuz brancos. Sobre a roupa do desconhecido, pequenos flocos de neve quase imperceptíveis. Na mão esquerda, estendida ao longo do corpo, segura uma pequena foice de lâmina prateada. Pendurado no pescoço, como é costume para trazer sorte, um amuleto em forma de ferradura. Apesar de o amuleto lembrar também uma foice sem cabo. O estranho fecha a porta, barrando o intenso frio de fora, e se detém a olhar o dono da casa fixamente. O seu rosto estampa plena compaixão. O pai da criança aponta em direção ao filho e o visitante se dirige até o menino doente, como combinaram algumas horas atrás, para que a mulher não veja e não tente impedir o sacerdote.
De outro cômodo, a mulher surge e pergunta:
- Temos visita? – sem receber resposta, ela insiste – É o sacerdote de quem você falou?
O homem confirma com a cabeça.
Secando as mãos no avental encardido, ela começa o trajeto até onde está o filho. Quando passa ao lado do marido, ele a segura pelo braço, a puxa para si e lhe dá um abraço apertado. Sem entender, ela retribui o gesto, mas observa atentamente o sacerdote e o filho. A criança tosse violentamente, tem manchas negras no pescoço e em partes do rosto. Muco escorre do nariz e uma substância amarela e viscosa preenche o canto dos olhos e da boca. Enquanto o peito arfa e chia como uma fera selvagem lutando pela liberdade.
O sacerdote se aproxima do enfermo e senta na cama. Ergue a foice e murmura brevemente. Depois toca a lâmina de leve na testa do garoto e na sua própria.
- O que está acontecendo? O que ele vai fazer?! – questiona a mãe assustada envolta nos braços do marido.
- O Destino já rolou seus dados. – é a triste e resignada resposta do marido.
Um golpe certeiro.
- NÃÃÃOO!
O sacerdote corta a garganta do menino de um lado a outro do pescoço. O sangue jorra e corre quente e escarlate pela cama, pingando no chão. Sobre o corpo agonizante, o sacerdote recita uma oração:
- Piedosa Morte! Pelo sangue aqui vertido, eu o suplico: abençoa e conduza esta alma até os Planos Superiores, para que daqui em diante, ela permaneça em eterna felicidade.
O homem continua a segurar a esposa firmemente, que se debate com furor. “Mais tarde ela vai entender” pensa, “a dor do nosso filho terminou e ele ficará melhor agora”. A doença da criança, além de torturar-lhe corpo, trazia sofrimento aos pais, aos vizinhos e às demais crianças das redondezas. Ainda assim, o homem chora silenciosamente a perda do filho amado.
- Não! Meu filho! Você matou ele! Assassino! – a mulher chora copiosamente. Grita a plenos pulmões em desespero e revolta, como só uma mãe pode lamentar a morte do filho.
E seu filho agora jaz ali. Diante de seus olhos, sob sua observação impotente. Seu filho, seu único filho, morto.
23 de junho de 2008
Astolfo contra o dragão
A história gira em torno de um talvez herói que tem a missão de derrotar um maligno dragão. O enredo tem a pretensão de ser cômico, então os exageros, as ironias, o ridículo e o non-sense não devem espantar o leitor que se deixará levar por essas passagens se quiser melhor aproveitar a história.
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Benévolo, o bardo
- De que se trata a missão mesmo, meu jovem? – perguntou meu acompanhante, Astolfo, o Bravo, famoso herói. Na verdade, era eu, como bardo, quem o acompanhava para que pudesse cantar sua esplêndida vitória mais tarde.
- O de sempre, meu senhor: um dragão recentemente anda rondando as proximidades da vila. O líder local teme que vidas humanas, ou pior, vidas bovinas sejam usurpadas pela fera. Os aldeões reuniram todas as suas reservas monetárias a fim de recompensar um valoroso herói que ponha um fim à ameaça tirânica de tal criatura vil. – Eu nunca entendi o fato dos dragões, criaturas centenárias, apreciarem tanto mudar a localização de seus esconderijos de tempos
- E você veio ver como age um herói?
- Não, vim acompanhar o senhor.
- Pois então, meu jovem! – Ele tinha nitidamente uns cinco anos a menos do que eu, mas mesmo assim insistia em me chamar de “meu jovem”. – Quando soube que Astolfo, o Bravo daria cabo da besta, veio correndo presenciar e se inspirar com meu feito, não foi isso?
- Na verdade, senhor, - de súbito eu odiei aquele homem e sua total ausência de humildade e modéstia, mas ainda mantinha minha refinada educação – fui eu quem primeiro chegou a esse este lugarejo. Mas até então desconhecia a abominável ameaça. Quando fui dela informado e da vossa conseqüente vinda, enxerguei excelente oportunidade para uma composição.
- Que seja, que seja...
Não íamos a cavalo para não atrair desnecessária atenção do monstro. Caminhávamos lentamente por uma trilha perfeita no mato e por entre o descampado. Astolfo, o Bravo era realmente uma figura impressionante: corpo musculoso; pele queimada pelo sol inclemente das estradas; vasta e revolta cabeleira loura; roupas protegidas com camadas de couro e metal em algumas partes, mas curtas o suficiente para exporem sua trabalhada musculatura e que o faziam tremer no frio invernal. Portava um belo e poderoso escudo circular e carregava na mão direita uma lança, que segundo ele, era mágica. Seu sorriso era perfeito e brilhante, que ele gostava de ostentar com freqüência. A expressão de confiança na face até mesmo conseguia camuflar os dois dentes frontais postiços. Astolfo era o orgulho de qualquer personal-hero-stylist.
- Quem são eles? – perguntei por fim, após longo silêncio.
Apontava para uma chusma de lavradores remendados, sujos e maltrapilhos que nos seguia. Homens, mulheres, jovens, velhos, velhas e crianças; todos nos olhavam atentamente, como se a qualquer momento um de nós tirasse um pombo da manga, feito aqueles ilusionistas baratos. Notei que alguns traziam cestos ou sacos com refeições, para que pudessem se saciar durante o espetáculo vindouro. Estranha prática que tem virado moda.
- Ah, eles? São meus fãs. – respondeu-me distraído.
- Fãs!
- Sim, meu jovem.
- A altivez de vossos fãs reverbera a vossa fama.
Ele apenas me deu um de seus estratégicos sorrisos. Obviamente não percebeu minha ironia.
Astolfo percorria o caminho muito sério, salvo quando falava comigo. Parecia preocupado, talvez concentrado bolando um estratagema para abater o dragão.
- De que maneira pretendeis subjugar a dracônica criatura, ó valoroso paladino? – perguntei.
- O quê?
- Como matareis o dragão?
- De modo muito simples – respondeu-me sorridente, - mas também de forma astuciosa – ele esboçou a melhor expressão de sagacidade que conseguiu.
- Contai a mim vosso intento.
- Primeiro entro na caverna, porque todo dragão que se preze mora numa caverna. É provável que ele esteja dormindo...
- Como sabeis? – interrompi-o.
- Dragões gostam de dormir, principalmente quando um herói está para invadir seu covil. E pare de fazer perguntas tolas! Depois analisarei a criatura em busca de um ponto fraco – ele gesticulava intensamente, encenando a situação hipotética. – Então bradarei um desafio heróico que irá aturdi-lo de medo, e não de sono como pensam alguns... Aproveitarei o momento para enfiar minha comprida lança.
- Ooooohhhhhh! – exclamou o bando que nos seguia, fazendo uma interpretação maldosa de duplo sentido da frase.
- Deveras, vosso plano é extremamente engenhoso...
- Aham, é tiro e queda. Um dia você chega lá, meu jovem.
Já havia me irritado o suficiente com Astolfo. Fui conversar com a caterva que nos seguia sobre o dragão, sobre o estilo de vida simples do campo e outras inutilidades. Logo me vi cercado por diversos rapazotes robustos de caras alegres. Conheço o tipinho, bastante comum: jovens pobres e sonhadores, ávidos em conseguir fama, fortuna e mulheres seguem a glamourosa carreira de herói aventureiro. Pegam uma mochila e roubam a faca da cozinha de suas mães, fazendo-as de espada e saem pelo mundo. A maioria não dura duas semanas. Alguns ainda conseguem voltar esfarrapados pra casa.
- Você conhece Astolfo, o Bravo? – perguntou-me um deles.
- Não. E vós, conheceis?
- Só de ouvido. Dizem que quando Astolfo espirra, os deuses lhe dizem “saúde”!
- Dizem que o minotauro não tinha chifres antes de Astolfo atingir a puberdade. – falou mais um, todo risonho.
- Basta, basta! Já entendi! Se Astolfo peidar, vós cheirais.
Já havia me irritado o suficiente com aquela gentalha. Decidi percorrer o restante do caminho longe de qualquer companhia humana.
Após um período relativamente longo de caminhada, aproximamo-nos do fim da trilha, finalmente:
- É o fim da picada. – anunciei.
- Oooohhhh! – fez a platéia em coro, novamente subvertendo o sentido.
- E exatamente como vós falastes, há realmente uma grande gruta à frente – me dirigi às proximidades da caverna e notei sinais no chão. - E vejais aqui: imensas pegadas! Certamente pertencentes ao dragão.
- Tem um dragão mesmo? – Astolfo estava pálido. Parecia extremamente surpreso.
- E o que é que esperáveis?
- Ah, sei lá. Aqui no meio do mato é tão sem graça. Sabe como são esses roceiros. Tendo uma garrafa como companheira noturna de tédio, eles enxergam de tudo: lobisomens, dragões, discos voadores... mas um dragão de verdade! ‘Tô fudido!
- Oooohhhh! – desaprovou a platéia. Um delicado rapazinho deu uma insinuada piscadela a Astolfo.
- E você! Não poderia ter arrumado testemunhas menos maliciosas? Ô gente depravada! – reclamou o herói.
- Ué! Não são vossos fãs?
- Ahn... Er... Bom... Devem ser. Fãs seus é que não são.
Ponderei por não retrucar a essa grosseria, pelo bem da minha integridade física. Porém incuti-lhe:
- Agora que sabemos que se trata de um dragão verdadeiro, é um alívio podermos contar com um herói verdadeiro.
Astolfo me deu como resposta um de seus sorrisões confiantes. Ele não era mesmo bom em perceber ironias. Dirigiu-se à entrada. Titubeou.
- Não estais com medo, estais? – provoquei.
- Medo? Medo! – ele se virou na minha direção furioso. – Então não conhece a fama de Astolfo o Bravo? Astolfo, o que chuta pedras descalço. Astolfo, o que discute a relação. Astolfo, o que come pastéis de rodoviária.
- Sim, vossa coragem é lendária. Desculpe-me, foi apenas uma brincadeira.
- E é só por isso que você ainda está vivo. Isso e o fato de que matar bardos dá azar. – Pôs-se a imitar uma galinha, gesto típico para afastar a má sorte. Pensei, rindo comigo, que se existisse um animal ao qual Astolfo pudesse ser associado, esse animal seria o que ele estava imitando naquele momento.
O herói começou a analisar a situação. Examinou as pegadas, mediu vagamente o diâmetro da entrada da caverna, observou as condições do relevo em torno e verificou a direção do vento. Ele realmente merecia um Prêmio de Teatro.
- E então?
- É mesmo um dragão. E dos grandes! Recomendo que fique do lado de fora, meu jovem. Pode ser perigoso.
- Se eu aqui permanecer, de que maneira poderei anunciar os detalhes do vosso fabuloso triunfo?
- Vocês poetas sempre mentem mesmo. – resmungou ele, mais para si do que para mim.
- Mas nunca sobre Astolfo, o Bravo. – respondi malicioso.
Ele pareceu ficar sem argumentos e se resignar definitivamente a enfrentar o dragão. Estampou seu último sorriso e adentrou o covil da fera, seguido a certa distância por mim e pelos espectadores, que agora mastigavam nervosamente algum tipo de alimento ruidoso.
Avançávamos da seguinte forma: Astolfo à frente, em posição de ataque e alerta; mais atrás eu com meu instrumento musical; e por fim a multidão que iluminava a cena parcamente com algumas tochas.
- Quereis que eu declame algo?
Interpretei o silêncio como uma afirmativa e iniciei uns versos improvisados no meu alaúde:
- Nas brumas da morte ele entrou, o mais bravo dos bravos,
Tendo apenas a coragem como lume.
No silêncio tonitruante, onde o medo dilacera as vísceras
Antes mesmo de qualquer ataque.
Que terrores indizíveis aguardam ao virar da próxima curva?
A criatura fatal, pronta a arrancar o último suspiro
Com um único golpe de dor lancinante...
- Quer calar a boca, pô! Não tá ajudando. – gemeu a voz do herói em reclamação, vinda do breu.
- Oh, perdão.
- Vai logo cagão! - veio um grito da platéia.
- Quem disse isso? – exigiu Astolfo. – Repete se for macho! – berrou
Naquela quietude tumular
Quando nos recompomos, vimos o guerreiro apoiado em sua lança, tremendo.
- Onde está o dragão? – perguntei apavorado.
- Fugiu! – respondeu triunfante.
- O que é isso em vossas calças? – indiquei uma mancha comprida no vestuário dele, que começava a lançar pingos no chão.
- Fui ferido. – explicou-me sem jeito.
- Na genitália!
O “oooohhhh” da platéia dessa vez foi em piedade pela dor alheia. Os homens rapidamente trataram de proteger suas partes com as mãos.
- Que cheiro de urina é esse? – indaguei intrigado, farejando o ar. Gesto que foi seguido por todos. Astolfo acelerou o passou e rapidamente avançou em direção ao âmago da caverna.
Prosseguimos a passos tão curtos que nossos calcanhares tocavam a ponta dos dedos do outro pé. Foi então que uma forte e extremamente úmida lufada de vento nos atingiu. As chamas das tochas se extinguiram e nossos olhos viam apenas trevas. Ouvimos passos poderosos e uma respiração alta e ofegante. Então escutamos metal ser largado no chão e o som de corrida rumo à saída: Astolfo, o Bravo fugira.
Fiquei em estado catatônico, paralisado esperando pela baforada que me traria dor e morte. Mas ela não veio. O que veio foi uma risada. Uma risada que lembro até hoje. E que ainda hoje me deixa furioso:
- Ha-haiiiiiii-hi-hi!
Fortes luzes se acenderam por toda a parte. Nos breves momentos de fotofobia eu não distinguia nada.
- Sorrrria! Você está na “Pegadinha do Dragão”! – a platéia assobiava e aplaudia efusivamente.
À minha frente, quando recuperei a visão, vi um homem sorridente (mais um!) vestido com smoking e cartola roxos.
- Dê um tchau para a mamãe, você está na IMVITE! – ele me segurou pelo ombro e me moveu com uma violência gentil. Apontava para um homem barbudo, vestido com pijama de estrelinhas e chapéu pontudo, que segurava uma grande esfera de energia negra entre as mãos.
- IMVITE? – repeti bestificado.
- Exatommmm! IMagem VIsual TEletransportada, estamos-trabalhando-num-nome-melhor... Com ela, você pode transmitir uma imagem de qualquer lugar para qualquer lugar do continente através de um artefato mágico receptor!
- Qualquer lugar? – o espanto havia me deixado embasbacado e parecia haver drenado minha capacidade de formular frases por conta própria.
- Simmmm! Caros espectadores, enquanto nosso pato... Digo... Convidado se recupera, vamos ao intervalommm.
O homem do pijama apontou a esfera na direção de um dragão roxo e borrachento (fantasia que algum idiota vestia) num canto. Dançavam ao redor do falso dragão, as duas mulheres mais voluptuosas que eu já vi em toda a minha vida.
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Após os acontecimentos daquele dia, passei muito tempo em terapia psicológica. E os altos preços das consultas me fizeram entender o porquê da profissão ser atualmente tão procurada por jovens estudantes em busca de dinheiro fácil.