20 de maio de 2014
"Je t'aime, ô capitale infâme!"
"Je t'aime, ô capitale infâme! Courtisanes
Et bandits, tels souvent vous offrez des plaisirs
Que ne comprennent pas les vulgaires profanes"
Observando o centro da cidade sujo e fedorento, com seus lindos prédios decadentes, ao mesmo tempo tão vivos da história que ainda se estende pelas calçadas soltas sob os pés das pessoas apressadas. Gente esfarrapada e elegante, seres humanos assustadores e as mais belas representantes da beleza da cidade. Feiúra e encantamento convivem. Apresentações musicais, teatrais, manifestações religiosas e políticas, mendigos, ambulantes, anunciantes, tudo isso ao mesmo tempo na cacofonia de uma grande cidade. É preciso pouco para sentir nojo de Porto Alegre, assim como é preciso pouco também para amá-la.
Te amo, capital infame! Porto Alegre está longe de parecer Paris, mas eu também não sou lá nenhum Baudelaire.
30 de agosto de 2011
O Sentimento Amoroso. E Chagall.
Nefelibata desiludido preso ao chão dos cuidados do ceticismo. Desconfia. Teme. E ignora. Ainda que apaixonadamente içado, resiste. Sorri felicitadamente, sem alçar os pés.
Até que...
Para ti, palavras são mais do que o vento que compõe o som. Palavra não evanesce. Palavra é saliva. Palavra é sangue. Palavra é espírito e matéria. E isso são coisas que não podem ser desperdiçadas. Palavra é raridade. Por isso preciosa. Palavras são confissões, trocas, atestados, promessas, verdades. Cada palavra carrega sentidos e intensidades. Não podes jogá-las irresponsáveis. Tem de dar direção e intenção a elas. És o silencioso asceta da comunicação. Pois dar a tua palavra é dar o que tens de mais caro. Com a palavra, proferes a ti mesmo. E te entrega. És tu mesmo palavra.
Por isso titubeia. Tergiversa. Adia. Fica no chão, não levita ao lado da tua amada. E o pior: a segura no solo. Não consegue dizer sem ter a certeza. Sem estar certo da tua promessa e das tuas ideias. Está disposto, mas quer ser o mais possível veraz e franco. És um homem duro, mas reserva a ti mesmo a pior rigidez. Admite, sem nocivas consequências de estima, que outrem seja maleável, inconstante, indeciso, mutante. Mas não te permite pensar que até tu pode não ser mais o mesmo se assim desejar. Aos outros todas as permissões, a ti retidão absoluta. Uma vez tomada a decisão não poderá voltar? Deve te elevar até os confins e realizar o mais difícil: SE permitir.
Quem disse que as metamorfoses são permanentes? Quem falou que não se pode voltar a ser crisálida? Se os edifícios alheios podem desmoronar e não durar, porque as tuas construções deveriam durar para sempre? Nem todos os prédios são perenes. Sobre boas bases se constroem boas construções, ainda que abaláveis. Construa.
Ou acaso ignora em teu peito o ar que escapa? O coração que acelera e ferve teu sangue? O pensamento que se perde num rosto? As mãos que relembram? Um corpo que pede e uma alma que anseia? O pneuma que recupera? Um sopro que sustenta e embala e anima? Anima alma.
Afirma o que age em ti, cumpre tua vontade. Torna-te palavra.
Voa, voa, voa. Segue a borboleta. E anuncia.
Te amo.
25 de março de 2010
Retorno
1 de dezembro de 2009
Dizem
mas não dizem que próximo é esse.
Todos?
Amar todos? Hipocrisia.
Não, obrigado. Prefiro a cruel honestidade.
Se amar, devo escolher quem. Se os amo, os protejo e os faço especiais para mim.
E para isso é preciso que eu os coloque acima de outros.
Como amar quem não conheço? Burrice.
Não, obrigado. Prefiro a limitada inteligência.
Dizem que devo estender as mão,
porque elas são boas e úteis quando firmes e limpas,
caso contrário, restará apenas a chuva.
Não é difícil me culpar pelo orgulho e pela amargura.
Dizem que devo fazer algo para o mundo,
um mundo que nunca fez nada por mim,
nem por ninguém.
Um mundo indesejado e decadente, que não escolhemos.
Dizem que devo agir,
mas não dizem por quê.
Dizem que a outra opção possível é a inércia
e que só me cabe escolher,
mas não dizem é o porquê de ter que escolher.
Não dizem porque, porque não sabem porque,
apenas dizem. Porque é bom. Que diante do bom, não é importante o porquê.
Mas não posso suprimir em mim essa fome de sentido,
onde minh'alma vaga fareja o porquê. Fareja a aurora e o crepúsculo, onde o insucesso sempre retorna.
Querem dizer que não tenho importância só para mim.
Sou apenas se para-os-outros. Sou se servil.
Querem dizer que sou fraco por ser só. Querem dizer que preciso deles para ser.
Mas não podem. Falam detrás de máscaras.
Por fim,
dizem que desperdiço, que traio, que poluo.
Temem não ser eternizados.
Conhecem e repudiam a podridão em que chapinham tanto quanto eu.
Exalto a diversidade. Da única vida que tenho e à qual digo "sim". Na qual explodo e experimento.
Repugna-me a violência, não por ser o próximo,
mas por ser um outro, que bem poderia ser eu.
Na elegia do egoísmo, defendo a minha raça.
Minha revolta é indolente e metafísica.
Minha ação é interior. Minha oferta é a tolerância. E isso é mais do que jamais fizeram ou proporcionaram.
Mas isto não dizem. E nunca dirão.
14 de junho de 2009
Aurora de Róseos Dedos
Meia madrugada. Acordo. Banheiro e gole d’água. De repente, sou atacado por uma súbita angústia, meu espírito recorda as feridas sofridas durante o dia. A insônia estava instalada. Depois de me debater inutilmente na cama, com a certeza de não mais dormir, levanto, me visto e vou dar um passeio a pé no bairro. Eram 5:30 da manhã.
O céu a essa hora parece mais iluminado do que à noite, como se fosse o último e mais intenso brilho antes do fim. Vênus brilhava quase tanto quanto a lua, enquanto nas ruas, imperava a escuridão e o silêncio. Vez ou outra um carro solitário ganhava o asfalto lentamente, envergonhado de estar na rua a tal hora de domingo. Somente os gatos terminavam sua ronda e começavam a voltar para o conforto de seus lares.
A temperatura estava por volta dos 8ºC, minhas orelhas doíam e meu nariz congelava e impedia de sentir qualquer cheiro que não fosse o da fumaça dos primeiros fogões à lenha que começavam a ser acesos.
Ouvi os sinos das igrejas badalarem às 6 da manhã.
Após uma hora vagando pelas ruas desertas, subi até a parte alta do bairro para tentar ver nascer o sol. Esperei lá parado, em pé, à maneira daquelas estátuas grandiosas feitas por generais e ditadores, tão alheias à realidade daquele que serviu de modelo.
Abaixo, uma miríade de luzes tão grande quanto a que havia acima de mim. Mas nem de longe tão fascinante. As luzes dos postes, das casas, dos veículos e dos outdoores preenchiam a paisagem no breu.
Os sons iniciavam a destruir a quietude: escapamentos de ônibus, uma música techno vinda não sei de onde ecoava ainda no vale e uma salva de fogos de artifício estourou por motivo ignorado. Então o galo e mais tarde os cães e os pássaros anunciaram com seus berros o novo dia que chegava.
Vi pouco a pouco o negro do céu dar lugar a uma gradação de cores até chegar ao vermelho-rosado das primeiras luzes solares que alcançavam esta parte do mundo. Foi impossível não lembrar de Homero e do epíteto mais poético repetido por ele: Aurora de Róseos Dedos.
Talvez a melhor e mais verdadeira forma de conhecer o mundo não seja mesmo através dos sentidos, mas esta é com certeza a mais bela e agradável de todas. Gradativamente, pedaço a pedaço, fui reunindo as deste grande mosaico até que ele explodisse em imagens e sensações amalgamadas. Tive a sensação de que vivia. Sabemos que estamos vivos, respiramos, falamos, nos tocamos e nos movemos. Mas quando tomamos consciência disso? Consciência profunda do que é viver e o que isso representa. Naquele instante eu senti o sol nascer, diferente de todas as manhãs quando vejo a mesma cena para ir trabalhar. Eu o esperei, o contemplei, o senti, tive a consciência dele. Isso faz toda a diferença. Senti que havia um sol nascendo, senti o frio, ouvi os sons e vi as luzes, senti que estava vivo. Naquele momento eu vivi mais.
Encontro
Mãos nos bolsos, passo lento, as costas curvadas em direção ao chão e o olhar divagando sem ver o horizonte de pedra e metal. Na direção contrária da calçada, de passagem, casualmente, um rapaz vinha ao meu encontro. Um olhar rápido, casual, e o reconhecimento. A mesma angústia no rosto, o mesmo desespero, o mesmo pedido estampado: ajuda. Quem iria pedir socorro ao outro primeiro?
Tudo o que pensei a seguir me passou como um raio pelo cérebro. Éramos iguais, sem dúvida. Dois angustiados. Mas olhando bem para ele percebi que o desespero dele não era o mesmo que o meu. Como poderia haver angústia no mundo que não a minha? Mas havia. E ela estava bem na minha frente, uma angústia mundana. Mais ou menos legítima que a minha? Não sei, e não importa saber. O que importa é que não eram angústias iguais e, portanto, ele não podia me ajudar. Eu continuaria sem respostas. Percebi então que todas as angústias que não fossem as minhas seriam diferentes das minhas. Se não existem angústias iguais, não faz sentido buscar auxílio em outras angústias. Ninguém poderia me ajudar. Nem mesmo outro angustiado. Nem mesmo aquele rapaz diante de mim.
Ante o meu atônito silêncio, foi ele quem pediu ajuda para resolver a sua própria angústia. Falou que precisava voltar a Porto Alegre, onde morava, e que estava faltando um dinheiro para a passagem. Quis me vender uma jaqueta tão suja e rota quanto o restante da roupa que vestia e tão maltratada quanto a expressão facial que ostentava.
- Não – respondi.
- Faltam só três reais para completar. Eu to precisando – ele insistiu.
- Não.
- Pode ser alguma moeda também...
- Não.
- Ta bom, valeu...
Ele foi embora. E não abordou mais ninguém na rua, nem antes nem depois de mim. Por quê? Por que pareço mais rico ou mais bondoso? Não. Porque ele também me reconheceu como igual. Ao cruzarmos os olhares, percebemos o desespero no outro e nos comovemos mutuamente por reconhecimento. Mas ele não podia me ajudar e eu não quis ajuda-lo.
Não porque eu pensei que era balela dele essa história de passagem e ele estava precisando do dinheiro era para comprar um baseado. Se fosse isso, seria um desespero genuíno ainda, tão justificável quanto o outro, e talvez ainda mais premente. Eu teria ajudado. Também não era o motivo de não ajudá-lo por medo de assalto, medo que quando eu sacasse a carteira para pegar as tais moedas ele agisse. Não foi por isso. Ao contrário, amortecido como eu estava, acho que mesmo ansiava por um motivo para ser violento. Eu bem que podia ajuda-lo, mas não quis. Preferi a crueldade e a vingança. Ele não podia me ajudar. É isso aí seu merda, foda-se. Experimente um pouco da angústia solitária e sem esperança de resolução.
Mas como acabar com a minha angústia e o meu desespero então? Como agir ante o silêncio do mundo, o sem motivo da vida e a incerteza de tudo? Como responder aos porquês? E pior, sabendo que não existe socorro. Sem ferrolho, sem arrego. Não dá, a angústia é só minha e nunca acaba. Não posso supera-la nunca. O que posso é romper com a lógica da angústia-desespero, usando a angústia como ferramenta, como instrumento de testes do possível.
Preciso aceitar a angústia e usa-la em confronto com ela mesma. Continuar, enfrentar, não saber, angustiar. Sem desespero.
------Esse fato ocorreu no inverno de 2008, mesma data em que este texto foi escrito. Guardado em uma gaveta por quase um ano, finalmente o prendo aqui.
9 de janeiro de 2009
Busca da Verdade
Olhei tempo demais para a escuridão e nenhuma luz penetra mais em meus olhos e eu só enxergo dentro de mim.
Vociferei contra Deus e abandonei o convívio dos homens.
Tudo pela lucidez desesperada que me traria a Verdade.
Mas ah, a verdade é que não existe Verdade.
Só existe eu: sozinho, cego e nu.
21 de julho de 2008
Cadê?
Vida calcada nas esperanças postas no devir e no definir. Caprichos de nebulosos de um nefelibata induzido. Não pude evitar ser enganado pelo mundo. E cair das nuvens não é fácil nem agradável. Pior é passar do chão e mesmo de lá ainda ter a coragem de sonhar.
O que posso fazer além de aceitar a rota de um povo que renego dum tempo que não quero?
O que fazer além de continuar a busca? Prosseguir previamente o mesmo percurso traçado para mim, mas não por mim. Cadê a originalidade? Está nos pequenos desvios rebeldes, nas pequenas paradas reflexivas, mas principalmente na consciência lúcida e na desesperança.
Cadê o sentido? Cadê a vida? Cadê eu? Cadê tudo? E cadê nada?
16 de julho de 2008
Quero ser mendigo
Quero ser o salmão que nada contra a corrente e que sobe o rio. Na contra-corrente do que todos querem, sou do contra, sou à margem.
O mendigo é o excluído. Excluído do lucro, da compra, da venda, da produção, da circulação do capital enfim. O mendigo é o indivíduo colocado a parte do funcionamento da sociedade. A peça desnecessária nas engrenagens da grande máquina da humanidade é o mendigo.
Mas não é isso. O mendigo faz parte da sociedade, é o aborto dela, o rejeitado, o lixo social. O mendigo está ali para servir como exemplo de fracasso e como comparativo de riqueza e poder. Afinal, o que pode acontecer de pior a alguém do que ser um mendigo? Mendigar é o fim social, a não-produção. É o chão do qual ninguém pode passar. É o que há de inferior e comparar-se a ele é elevar a si mesmo.
E é por isso que o mendigo é livre e é um rebelde. A sua liberdade é alcançada pelo desprezo e pela exclusão. Ele é o homem sem futuro. Seu único destino é a miséria. Ele renega e está livre dos objetivos, diretrizes e moralidades burguesas. Não é nem pró nem contra o capitalismo. Não é alinhado a nenhuma ideologia que não a sua. O mendigo não é nada, não deseja nada, não pode querer ser nada. E por isso tem a liberdade mais profunda que um homem finito poderia almejar. Porque ser livre é cair no vazio.
E que é comer da caridade? Isso não agrilhoa o mendigo. Apenas o vinga.
Quero ser mendigo. Quero a liberdade de não ter mais nada a perder.
3 de julho de 2008
O Poeta Pobre

Por algum motivo essa pintura me marcou profundamente. É linda realmente, mas não foi só pela beleza estética que me chamou a atenção. A pintura mostra a decadência de um artista, ou a decadência, a privação, a frugalidade, as dificuldades financeiras que acompanham o artista. Um artista sem oportunidades é um artista fracassado, um poeta pobre.
Bem, não sou poeta. Não tenho talento pra isso. Mas procuro uma carreira semelhante, no ramo acadêmico. E ao ver essa pintura veio à tona todos os meus medos de não ser economicamente bem sucedido na profissão que escolhi. Serei um dia como o poeta pobre de Spitzweg? Se serei, que seja! O serei com satisfação. Satisfação de pelo menos ser um poeta. E há até certa magia em ser mendigo e poeta...
Sobre Spitzweg: pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Spitzweg
Galeria com 185 obras de Spitzweg: www.carl-spitzweg.de/galerie.htm
24 de março de 2008
Cansado
Cansado de acordar as manhãs.
Cansado de ver o dia nascer e morrer ante meus olhos cansados de ver.
Cansado de observar a lua nua crua na rua me mirando do céu,
como se até ela notasse e anunciasse o meu cansaço.
Cansado de toda essa gente
zanzando intermitente,
epalhando pólen e colhendo néctar para levar o mel
a uma colméia sem rainha.
Cansado de ouvir o som,
esse zum-zum-zum irritante
de anúncio altissonante
do tédio que não tem fim.
Cansado de cheirar o monstruoso amontoado mal-cheiroso
de um mundo supérfice que apodrece.
Cansado de tanto arrosto
apenas para provar o gosto insosso
e tocar a parede fria
num sem-sentido dos sentidos.
Cansado de fazer planos
para um futuro que nunca chega.
Um futuro que não existe fora dos meus sonhos cansados de sonhar.
1 de março de 2008
Eu
Eu: fariseu ou filisteu? Talvez, quem sabe, apenas um mutante Proteu. Sei eu.
No mundo existem bilhões de eu. Mas nenhum deles me importa. Tudo o que me interessa sou eu, bilhões de vezes eu.
Quem sou eu? Nem apaixonado Romeu, nem heróico Perseu, nem potente Briareu, sou eu apenas um desconhecido plebeu.
E aí, entendeu? Que merda, então fodeu.
9 de fevereiro de 2008
Preguiça
Se me perguntassem por que é que afinal eu sinto tanta preguiça, por que sempre tão cansado se pouco ou nada fiz pra ficar nesse estado? Provavelmente eu respondesse: "ora, de viver, é claro! Viver é exaustivo". O simples fato de estar vivo é tão enfadonhamente cansativo...
Mas não é essa a minha resposta corriqueira. A resposta é sempre um sorrisinho constrangido e condecendente. A resposta mais provável não lhes digo, com medo de me considerarem pusilânime e fraco. Talvez eu o seja, mas obviamente prefiro não admitir, e por isso calo. Sinto preguiça de explicar.
21 de novembro de 2007
Deixei
Deixei de abrir as janelas.
Deixei de passar pelas portas.
Deixei de mergulhar em águas bravias.
Deixei de caminhar pelas estradas.
Deixei.
10 de setembro de 2007
A voz do buraco
E nem precisa ser uma armadilha com gravetos e folhas ocultando o buraco. Eu mesmo, quando vejo um buraco dando sopa, não perco meu tempo e me arremesso logo pra dentro. Daí eu fico lá, curto o visual e tal… Até ver aquela luz sedutora e salvadora lá em cima; cavo uma escada e saio. Sozinho, sempre sozinho, é assim que deve ser: entrar e sair do buraco sozinho, sem ajuda e sem que ninguém (ou mínimo de pessoas possível) veja.
A paisagem mais estúpida e vulgar se torna maravilhosa aos olhos depois que se sai das trevas de um buraco. Talvez por isso eu goste tanto de buracos, a visão sempre se renova.
Algumas pessoas são capazes de produzir grandes obras quando dentro de um buraco, verdadeiros monumentos à tristeza e ao desespero. Outras cometem seus piores erros quando estão emburacadas. Acho que pertenço ao segundo grupo…
É humilhante para eu admitir esse meu lado depressivo, egoísta, procrastinador e auto-destrutivo. Mas faz parte de mim. Negar ou ignorar seria hipocrisia, não gosto de mentir, principalmente a mim mesmo. Portanto, confesso-me integralmente melancólico.
E essa foi mais uma declaração em que minha voz saiu do buraco. Para leituras mais agradáveis, aguarde minha saída.
A caminho do fim
Acordo. As ilusões se desvanescem, os sonhos findam. O tempo me dilacera, me esmaga, me atravessa. Envelheço. Mudo, transfiguro, transformo: metamorfose.
O que há de vir é obscuro, incerto, impossível. O presente é nebuloso, a visão barra na névoa da ignorância. Meu passado é esquadrinhado, avaliado, medido, pesado.
Quando partir, o que legarei além de lembranças vãs e lixo?
A teimosia dos porquês
Há pensamentos que percorrem minha cabeça, carregadas de perguntas cujas respostas o ser humano nunca será de criar definitivamente. Todas cheias de porquês. Porquês de início primordial e de finalidade última. Porquês de compreensão, de definição, de ordenação, enfim, porquês pra todos os gostos.
Por que existem porquês que não se podem encontrar respostas? Porque aí está a prova da inteligência infinita de Deus, poderiam objetar alguns crentes (ah, como invejo vossa fé). Somente o Seu intelecto, imensuravelmente superior ao humano, seria capaz de compreender tudo. Mas a existência ou não de Deus também não é uma enigmática além da percepção e do saber humano? Aí está, aliás, uma questão a qual deixei de me fazer; cheguei a uma conclusão, não muito satisfatória, mas uma conclusão: não sei.
Então por que ainda insisto em me inquirir perguntas que não responderei? Como certas doenças que permanecem no corpo e sempre manifestam seus efeitos quando a resistência está baixa, assim os teimosos porquês afligem quando a resistência mental está baixa. O ócio é talvez o grande responsável pela queda da resistência mental. Mas não somente o ócio profissional, mas social, intelectual e afetivo.
“Cabeça vazia é oficina do Diabo” é o que diz o ditado popular. Sem querer entrar na espinhosa questão envolvendo o Diabo..., o ócio não seria benéfico? Sim, ele (o ócio) produz naturalmente inquietações, que produzem perguntas. E perguntas recheadas de porquês. “Conhecimento se produz com perguntas” foi mais ou menos o que disse alguém que não me lembrarei. Portanto, apesar de angustiante, o ócio tem seus méritos afinal.
Mas aqui estou eu a divagar desnorteadamente, fugindo ao assunto inicial. E por que o texto deve se restringir ao assunto do título? Porque assim mandam as regras do bom português. Que se fodam as regras do bom português! Esse texto acaba aqui.


