6 de fevereiro de 2012

Carta ao Amor Distante

Como poderia saber, ao olhar nos teus olhos, que seria meu? Que seria para mim? Que estaria comigo quando a noite caísse e também quando amanhecesse o dia? Que estaria comigo mesmo sem estar durante todo esse tempo em que o mundo surgisse? Como saberia, se isso só se percebe com o tempo? E quando olhei nos teus olhos aquele dia primordial, teus olhos nada falavam de futuro ou de passado. Naquela ocasião teus olhos eram apenas presente. Um presente para mim do agora. Como poderia saber, ao olhar nos teus olhos, que seria meu, amor, distante?

Entretanto, tua distância foi próxima desde que deixou de ser proximidade. Sempre que te busco, é em mim que te encontro. Tão apaixonante quanto sempre. Quando tenho medo, sinto tua mão na minha. Quando rio, é o som da tua risada em meus ouvidos. Quando a brisa me toca, imagino teu sopro brincando nos meus cabelos, como costuma fazer sorrindo provocante. Quando chove; ou quando ouço aquela nossa música; ou quando uma frase recorda uma piada que temos entre nós; quando anseio pelo teu ávido coração que ecoa pulsações pelo teu corpo, é o meu próprio que encontro, que se agita e se acalma no meu peito.

E quem diria que iríamos ter que errar tanto até que nos encontrássemos. Errar de alma em alma, à procura de outros e de nós mesmos em outros, encontrando sorrisos e lágrimas que fizeram covardes nossas próprias intenções. Quem diria que teríamos que errar tanto até nos encontrarmos. Errar contra nós mesmos. Erros que tornaram demasiado cautelosos nossos semblantes. Até nos encontrarmos. Para então podermos errar juntos.

Distantemente tão próximos, impossível agora imaginar dias sem olhar sempre novamente teus olhos e saber então viver na proximidade do meu amor distante.

Com todo meu amor, distante, te remeto esta carta. A ser entregue por suaves e coloridas borboletas, com o pedido caprichoso de pousar em teu estômago.

30 de janeiro de 2012

Ainda mais frases de sabedoria em 140 caracteres, ou menos

Prosseguindo no projeto frases de sabedoria em 140 caracteres, ou menos, que teve também mais frases de sabedoria em 140 caracteres, ou menos, todas retiradas do meu twitter:

Sempre em busca da destruição ideal.

Você tem um twitter. Já pode ser comediante, cientista político ou crítico de arte, hein, champz.

Eu critico Tu criticas Eles criticam Nós somos chatos pra cacete!

Aguardo o dia em que cultura inútil for sinônimo de poder. Nesse dia eu farei parte da elite do planeta.

Estranho como dias cinzentos podem colorir teus olhos e um dia de sol tornar cinzento o teu coração.

Um dia finda, outro inicia. Dia após dia. Espiral repetida. Assim mantivemos. Assim queremos. "Era isto a vida? Pois muito bem, outra vez!"

Mas essa impressão de sentir o cérebro definhar é dura de resistir.

A arrogância teme o fracasso, por isso é fácil para ela se transformar em inércia.

Se você procurar na História, vai ver que qualquer dia tem a capacidade de ser um dia memorável.

Só existem dois tipos de pessoas no mundo: as que ingerem os restos de comida retirados dos dentes com o palito e as que não.

O amor é a última fronteira do Ideal para o Homem sem Ideal.

Sempre vai faltar alguma coisa.

Ainda que bem intencionados, vossos crimes e mentiras continuam sendo crimes e mentiras.

5 de janeiro de 2012

Livros Lidos em 2011

Modelo:
Título (Autor)
[Definição, Editora, número de páginas, complementos]

Livros lidos em 2011:


1- Assim Falou Zaratustra (Friedrich Nietzsche)
[Filosofia, Bertrand Brasil, 331 páginas]

2- Darmapada
[Poesia/Budismo, L&PM Pocket, 160 páginas]

3- Jardim de Inverno (Pablo Neruda)
[Poesia, L&PM Pocket, 94 páginas, espanhol/português]

4- Mestre Gil de Ham (J.R.R. Tolkien)
[Conto, Martins Fontes, 142 páginas]

5- Raízes do Mal (Maurice Dantec)
[Romance, Sulina, 542 páginas]

6- Sonetos (Florbela Espanca)
[Poesia, Pradense, 160 páginas]

7- Walden (Henry David Thoreau)
[Memória/Crítica/Naturalismo, L&PM Pocket, 336 páginas]

8- O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupèry)
[Romance, Agir, 96 páginas]

9- O Estrangeiro (Albert Camus)
[Romance, Record, 126 páginas]

10- Antologia Poética (Carlos Drummond de Andrade)
[Poesia, Record, 414 páginas]

11- A Torre Ferida por um Raio (Fernando Arrabal)
[Romance, Nova Fronteira, 250 páginas]

12- Tempo e Memória (Katia Canton)
[Teoria da Arte, Martins Fontes, 64 páginas]

13- Ficção de Polpa (org: Samir Machado de Machado)
[Contos, Não Editora, 128 páginas, volume 1]

14- A Rosa do Povo (Carlos Drummond de Andrade)
[Poesia, Record, 238 páginas]

15- Poesias (Fernando Pessoa)
[Poesia, L&PM Pocket, 134 páginas]

16- Há Prendisajens com o Xão (Ondjaki)
[Poesia, Pallas, 72 páginas]

17- O Anticristo (Friedrich Nietzsche)
[Filosofia, L&PM Pocket, 127 páginas]

18- Camus e Sartre (Ronald Aronson)
[Biografia, Nova Fronteira, 400 páginas]

19- Cem Sonetos de Amor (Pablo Neruda)
[Poesia, L&PM Pocket, 118 páginas]

20- Dublinenses (James Joyce)
[Contos, RBS Publicações, 222 páginas]

Filmes Assistidos em 2011

Filmes Vistos em 2011
Título no Brasil (Título original) [País, ano, diretor]


1. A Rede Social (The Social Network) [EUA, 2010, dir: David Fincher]
2. Machete (idem) [EUA, 2010, dir: Robert Rodriguez]
3. Tropa de Elite 2 – o inimigo agora é outro [Brasil, 2010, dir: José Padilha]
4. Morte ao Rei (To Kill a King) [Reino Unido, 2003, dir: Mike Barker]
5. Efeito Borboleta 2 (Butterfly Effect 2) [EUA, 2006, dir: John Leonetti]
6. A Cor da Magia (The Color of Magic) [Reino Unido, 2008, dir: Vadim Jean]
7. A Mulher Invisível [Brasil, 2009, dir: Claudio Torres]
8. Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off) [EUA, 1986, dir: John Hughes]
9. O Guia do Mochileiro das Galáxias (The Hitchhiker's Guide to the Galaxy ) [EUA/Reino Unido, 2005, dir: Garth Jennings]
10. 300 (idem) [EUA, 2007, dir: Zack Snyder]
11. (Family Guy Presents Stewie Griffin: The Untold Story) [EUA, 2005, dir: Pete Michels, Peter Shin]
12. A Vida de Brian (Life of Brian) [Reino Unido, 1979, dir: Terry Jones]
13. O Bicho Vai Pegar (Open Season) [EUA, 2006, dir: Roger Allers, Jill Culton]
14. O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray) [EUA, 1945, dir: Albert Lewin)
15. Trainspoting – Sem Limites (Trainspoting) [Reino Unido, 1996, dir: Danny Boyle]
16. Em Nome do Sol (Stara basn. Kiedy slonce bylo bogiem) [Polônia, 2003, dir: Jerzy Hoffman)
17. O Diário de Anne Frank (The Diary of Anne Frank) [EUA, 1980, dir: Boris Sagal]
18. Garfield 2 (Garfield: A Tail of Two Kitties) [EUA, 2006, dir: Tim Hill)
19. Ano Um (Year One) [EUA, 2009, dir: Harold Ramis]
20. Rainha Margot (La Reine Margot) [França, 1994, dir: Patrice Chéreau]
21. Monty Python - O Sentido da Vida (The Meaning of Life) [Reino Unido, 1983, dir: Terry Jones]
22. Cisne Negro (Black Swan) [EUA, 2010, dir: Darren Aronofsky]
23. Rain Man (idem) [EUA, 1988, dir: Barry Levinson]
24. O Incrível Exército de Brancaleone (L’Armata Brancaleone) [Itália, 1966, dir: Mario Monicelli]
25. O Discurso do Rei (The King's Speech) [EUA, 2010, dir: Tom Hooper]
26. Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail) [Reino Unido, 1975, dir: Terry Gilliam, Terry Jones]
27. Na Natureza Selvagem (Into the Wild) [EUA, 2007, dir: Sean Penn]
28. Klimt (idem) [Austria, 2006, dir: Raoul Ruiz]
29. Kick-Ass – quebrando tudo (Kick-Ass) [EUA, 2010, dir: Matthew Vaughn]
30. Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine) [EUA, 2006, dir: Jonathan Dayton, Valerie Farris]
31. Laranja Mecânica (The Clockwork Orange) [EUA/Reino Unido, 1971, dir: Stanley Kubrick]
32. O Pequeno Príncipe (The Little Prince) [Reino Unido/EUA, 1974, dir: Stanley Donen]
33. Cães de Aluguel (Reservoir Dogs) [EUA,1992, dir: Quentin Tarantino]
34. O Senhor dos Aneis: O Retorno do Rei (The Lord of the Rings: The Return of the King) [EUA, Nova Zelândia, 2003, dir: Peter Jackson]
35. O Efeito da Fúria (Winged Creatures)[EUA, 2008, dir: Rowan Woods]
36. Retorno a Howards End (Howards End) [Reino Unido, 1992, dir: James Ivory]
37. Thor (idem) [EUA, 2011, dir: Kenneth Branagh]
38. Sem Destino (Easy Rider) [EUA, 1969, dir: Denis Hopper]
39. Across the Universe (idem) [EUA, 2007, dir: Julie Taymor]
40. O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada) [EUA, 2006, dir: David Frankel]
41. Scott Pilgrim Contra o Mundo (Scott Pilgrim vs. the World) [EUA/Canadá/Reino Unido, 2010, dir: Edgar Wright]
42. Taxi Driver (idem) [EUA, 1976, dir: Martin Scorcese]
43. Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix) [Reino Unido/EUA, 2007, dir: David Yates]
44. Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1) [Reino Unido/EUA, 2010, dir: David Yates]
45. X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class) [EUA, 2011, dir: Matthew Vaughn]
46. Apenas Uma Vez (Once) [Irlanda, 2006, dir: John Carney]
47. Uma Noite Escura e Tempestuosa (Dark and Stormy Night) [EUA, 2009, dir: Larry Blamire]
48. Alien vs Ninja (idem) [Japão, 2010, dir: Seiji Chiba]
49. Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2) [Reino Unido/EUA, 2011, dir: David Yates]
50. Morte Negra (Black Death) [Reino Unido/Alemanha, 2010, dir: Christopher Smith]
51. Robin Hood (idem) [EUA/Reino Unido, 2010, dir: Ridley Scott]
52. Um Sussurro nas Trevas (The Whisperer in Darkness) [EUA, 2011, dir: Sean Branney]
53. Ninjas [Brasil, 2010, dir: Dennison Ramalho]
54. Anoitecer Violento (Stake Land) [EUA, 2010, dir: Jim Mickle]
55. Solomon Kane – O Caçador de Demônios (Solomon Kane) [Reino Unido/França/Rep. Checa, 2010, dir: Michael J. Bassett]
56. Tropas Estelares (Starship Troopers) [EUA, 1998, dir: Paul Verhoeven]
57. Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris) [EUA/Espanha, 2011, dir: Woody Allen]
58. O Rei Leão 3 – Hakuna Matata (The Lion King ½) [EUA/Australia, 2004, dir: Bradley Raymond]
59. Shrek para Sempre (Shrek Forever After) [EUA, 2010, dir: Mike Mitchell]
60. Toy Story 3 (idem) [EUA, 2010, dir: Lee Unkrich]
61. Bob Esponja – O Filme (The SpongeBob SquarePants Movie) [EUA, 2004, dir: Stephen Hillenburg, Mark Osborne]
62. Morte Súbita (Rogue) [Australia, 2007, dir: Greg McLean]
63. O Rei Leão (The Lion King) [EUA, 1994, dir: Roger Allers, Rob Minkoff] {3D}
64. O Feitiço dos Magos (El Corazón del guerrero) [Espanha, 2000, dir: Daniel Monzon]
65. Dias de Nietzsche em Turim [Brasil, 2001, dir: Júlio Bressane]
66. A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and the Chocolate Factory) [EUA, 2005, dir: Tim Burton]
67. Comer, Rezar, Amar (Eat Pray Love) [EUA, 2010, dir: Ryan Murphy]
68. Jumper (idem) [EUA/Canada, 2008, dir: Dou Liman]
69. Amor Além da Vida (What Dreams May Come) [EUA, 1998, dir: Vincente Ward]
70. A Bela e a Fera (Beauty and the Beast) [EUA, 1991, dir: Gary Trousdale, Kirk Wise]
71. Bravura Indômita (True Grit) [EUA, 2010, dir: Ethan Coen, Joel Coen]
72. Karate Kid (The Karate Kid) [EUA, 2010, dir: Harald Zwart]
73. Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo (Prince of Persia: The Sands of Time) [EUA, 2010, dir: Mike Newel]
74. Gremlins (idem) [EUA, 1984, dir: Joe Dante]
75. Super-Herói – O Filme (Superhero Movie) [EUA, 2008, dir: Craig Mazin ]
76. Era Uma Vez no Oeste (C'era una volta il West) [EUA/Itália, 1968, dir: Sergio Leone]
77. A Jovem Rainha Vitória (The Young Victoria) [EUA/Reino Unido, 2009, dir: Jean-Marc Vallée ]
78. Henrique IV – o grande rei da França (Henri 4) [Alemanha / França / República Checa / Espanha, 2010, dir: Jo Baier]
79. Spartacus (idem) [EUA, 1960, dir: Stanley Kubrick]
80. Bruna Surfistinha [Brasil, 2011, dir: Marcus Baldini]
81. O Desafio de Darwin (Darwin's Darkest Hour) [EUA, 2009, dir: John Bradshaw]
82. Napoleão – a última batalha do imperador (Monsieur N) [França/Reino Unido, 2003, dir: Antoine de Caunes]
83. Willow – Na Terra da Magia (idem) [EUA, 1988, dir: Ron Howard]
84. 127 Horas (127 Hours) [EUA/Reino Unido, 2010, dir: Danny Boyle]

30 de agosto de 2011

O Sentimento Amoroso. E Chagall.

Marc Chagall (1887-1985): pintor.


















Nefelibata desiludido preso ao chão dos cuidados do ceticismo. Desconfia. Teme. E ignora. Ainda que apaixonadamente içado, resiste. Sorri felicitadamente, sem alçar os pés.

Até que...

Para ti, palavras são mais do que o vento que compõe o som. Palavra não evanesce. Palavra é saliva. Palavra é sangue. Palavra é espírito e matéria. E isso são coisas que não podem ser desperdiçadas. Palavra é raridade. Por isso preciosa. Palavras são confissões, trocas, atestados, promessas, verdades. Cada palavra carrega sentidos e intensidades. Não podes jogá-las irresponsáveis. Tem de dar direção e intenção a elas. És o silencioso asceta da comunicação. Pois dar a tua palavra é dar o que tens de mais caro. Com a palavra, proferes a ti mesmo. E te entrega. És tu mesmo palavra.

Por isso titubeia. Tergiversa. Adia. Fica no chão, não levita ao lado da tua amada. E o pior: a segura no solo. Não consegue dizer sem ter a certeza. Sem estar certo da tua promessa e das tuas ideias. Está disposto, mas quer ser o mais possível veraz e franco. És um homem duro, mas reserva a ti mesmo a pior rigidez. Admite, sem nocivas consequências de estima, que outrem seja maleável, inconstante, indeciso, mutante. Mas não te permite pensar que até tu pode não ser mais o mesmo se assim desejar. Aos outros todas as permissões, a ti retidão absoluta. Uma vez tomada a decisão não poderá voltar? Deve te elevar até os confins e realizar o mais difícil: SE permitir.

Quem disse que as metamorfoses são permanentes? Quem falou que não se pode voltar a ser crisálida? Se os edifícios alheios podem desmoronar e não durar, porque as tuas construções deveriam durar para sempre? Nem todos os prédios são perenes. Sobre boas bases se constroem boas construções, ainda que abaláveis. Construa.

Ou acaso ignora em teu peito o ar que escapa? O coração que acelera e ferve teu sangue? O pensamento que se perde num rosto? As mãos que relembram? Um corpo que pede e uma alma que anseia? O pneuma que recupera? Um sopro que sustenta e embala e anima? Anima alma.

Afirma o que age em ti, cumpre tua vontade. Torna-te palavra.

Voa, voa, voa. Segue a borboleta. E anuncia.


Te amo.

6 de agosto de 2011

5 Filmes Preferidos

A seguinte lista foi elaborada para ser postada no Forum Valinor no topico Cinco Filmes Favoritos com Kainof.


Na Natureza Selvagem (Into the Wild – 2007)


O filme é uma adaptação do livro homônimo de John Krakauer, que por sua vez é inspirado pelo personagem real, e narra o caminho de Christopher McCandless da formatura na universidade ao seu destino final no Alasca. Como ele largou família, futuro, dinheiro, conforto, etc., para se aventurar pelas estradas com o desejo de viver isolado em meio a natureza, impulsionado pela insatisfação com a sociedade consumista e coisificadora.

As paisagens são exuberantes. As personagens que ele encontra são divertidas. As citações diretamente escritas pelo “Supertramp” incitam à reflexão. A trilha sonora de Eddie Vedder é inacreditável: nem uma única música pode ser considerada média, só de alto nível pra cima. E o modo de vida escolhido pelo protagonista inspira. Pra mim é uma história de heroísmo. Do único heroísmo possível na contemporaneidade. A busca por uma verdade interior, correndo os riscos que o meio físico interpõe.

O Incrível Exército de Brancaleone (L'Armata Brancaleone – 1966)

Brancaleone é uma paródia dos filmes épicos de temática medieval nos quais grandes e valorosos heróis salvam donzelas indefesas. Nesse filme, todas as personagens são risíveis e sem caráter, o herói não é tão heróico assim e a ridicularização é constante. Por esse aspecto Brancaleone se aproxima de Dom Quixote, em que um quase-nobre esquisito almeja a riqueza e o heroísmo num cenário social decadente. Até mesmo o meio-cavalo-meio-burro amarelo (!) de Brancaleone chama-se Aquilante (mala bestia di la mala sorte!), numa clara referência ao Rocinante quixotesco. Pelo roteiro já seria suficientemente engraçado, mas ainda conta com o talento tipicamente italiano para as comédias de farsa. E uma trilha sonora absolutamente cativante (viciante pra mim).



O motivo principal para este filme estar no meu top 5? Eu adoro paródias! E essa é muito bem feita e engraçada sem forçar a barra.

Spartacus (Spartacus – 1960)

Desde muito guri meu gênero de filmes preferido sempre foi o épico. De todos os que assisti, nenhum tem uma marca tão profunda na minha vida quanto Spartacus, o escravo gladiador da Roma Antiga que se rebelou e marchou contra a capital, libertando mais escravos no trajeto e regimentando um exército pela liberdade. Uma história de fato muito bonita e fácil de ser romantizada, e qualidade de encher os olhos. À parte o preponderante maniqueísmo hollywoodiano, que heroiciza sobremaneira Espártaco e seus companheiros, ao passo que demoniza os patrícios romanos, é um filme grandioso e espetacular, de um safra de épicos que somente os meados da década de 60 produziu.

Assisti ele na escola, aos 13 anos, e não sei como aquele filme legendado e antiquíssimo (para uma criança) me chocou e encantou de uma forma tão espetacular que influenciou muito minha paixão por História Antiga. Além de cinematograficamente excelente, Espártaco tem um espaço especial na minha vida.

Hair (Hair, 1979)

O conturbado fim dos anos 60 e seus movimentos socio-culturais estão entre os meus períodos preferidos na história. Movimentos juvenis de rebeldia, de pacificismo, de marginalização dos dogmas morais vigentes, etc, expostos principalmente na música e no comportamento. Entre esses movimentos, a cultura hippie adquire um certo destaque, por reunir todos esses parâmetros. Hair é um filme, inspirado no musical da Broadway do efervescente ano de 68, sobre um jovem do interior dos EUA recém chegado a NY para se alistar no exército e combater no Vietnã. Mas na metrópole ele faz amizade com um bando de hippies e se apaixona à primeira vista por uma moça rica.

Com canções de letras simples e psicodélicas, das quais “Age of Aquarius” é apenas a mais conhecida, Hair enfileira músicas e performances com temas como drogas, sexo, guerra, estilos de vida, amor, morte, exclusão, marginalização, impulsionados pelo hippie Berger, da melhor escola dos vagabundos cativantes, numa atuação excelente de Treat Williams. Hair encanta pela, concomitante, simplicidade do enredo e dos temas musicais e a apurada observação social, descomplicando o complexo.

O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring – 2001)


Já gostava de mitologia, fantasia, épico, relatos de viagens, combates com armas brancas, monstros. A Sociedade do Anel tem tudo isso! Quando vi o trailler na TV pirei, sabia que seria um dos filmes mais espetaculares que já tinha assistido. E foi. O filme que mais vezes assisti na vida: mais de 30, creio. A Sociedade é o meu preferido por ser o primeiro, por ser o mais verossímil em termos de feitos heróicos (ainda que grandiosos), por falar mais sobre os hobbits, por ser um enredo de descobertas para as personagens e para o espectador.

28 de junho de 2011

Mais Frases de Sabedoria em 140 caracteres, ou menos

Repetindo as Frases de Sabedoria em 140 caracteres, ou menos, agora ainda mais frases todas postadas no meu twitter entre janeiro e junho de 2011:


Não há fuga para fora. O único refúgio é o interior.

Quando foi que o cinzento do asfalto e o metálico dos vergalhões descoloriu os vossos rostos?

Esse eterno ter de explicar-me ao mundo é que me entedia.

As vossas lágrimas ou a vossa saliva causam-me frieiras. Apenas isso.

Um dos eventos mais sublimes da vida é quando o mundo exerce vingança por ti enquanto tu estás alheio ao assunto.

Disfarço rebeldia com conforto.

Disfarço incapacidade para protestar ouvindo punk rock.

Disfarço disfarce com dissimulação.

Todos me parecerem idiotas talvez seja um sinal de que o idiota sou eu.

O Goku diminuía o seu Ki para poder conviver com as pessoas comuns. Eu faço o mesmo com o meu QI...

Somente aquilo que deve morrer me parece digno de adoração.

A maioria das guerras poderia ser evitada se os homens fossem melhor informados sobre a impossibilidade da liberdade.

Menina de 11 anos pra mim: "Eu nunca vou te entender e tu nunca vai me entender, então deixa pra lá" Por que perdemos a sabedoria infantil?

Se quiseres falar às gralhas é preciso antes que aprendas a grasnar.

Falsa sabedoria do dia: aprenda, nietzscheano, que além de vontade é preciso ter saco. Sem saco a vontade se converte em frustração.

Não é fácil assim parecer tão inteligente! Tem que ter assistido muito Show do Milhão e Passa ou Repassa.

Entro na internet para fazer coisas. Desisto. Saio da internet para fazer coisas.

Ao expandir o egoísmo a ponto de reconhecer o egoísmo alheio, eu posso respeitar alguém exatamente por ser livre pra ser egoísta igual a mim

Só comove verdadeiramente a dor que traz beleza em si.

Aquele que fala que parar para pensar é covardia é porque nunca teve a coragem de parar para pensar.

Pessoas jogam juntas jogos iguais em tabuleiros diferentes com as mesmas peças.

Décadas mapeando o Espaço com poucos sucessos. Milênios mapeando a si mesmo sem sucesso nenhum. Triste espécie humana fadada a fracassos.

Silencia. E veramente verás que teus instintos ainda não aprenderam a enganar.

Van Gogh: enlouqueceu. Nietzsche: enlouqueceu. E eu?

Ter a alma atormentada de artista. Mas sem o talento para arte.

Meus pensamentos são todos traidores. Eles têm como único objetivo me enlouquecer.

Somos todos deuses para-nós-mesmos. Deuses do egoísmo. Ao mesmo tempo que idólatras e adoradores para os demais.

Não fiz voto de pobreza. Mas me formei em História, o que vem a dar efetivamente na mesma.

Só disfarço as minhas virtudes. Com meus defeitos sou completamente honesto.

Nada irrita mais o arrogante do que a piedade para com ele.

Já quisemos salvar o mundo. Hoje queremos salvar apenas nossos motivos, se é que nos restou algum.

Saudade de um tempo no qual a minha arrogância tinha fundamentos. Ainda que apenas psicológicos.

A prova do teu egoísmo incorformado é quando o que para ti é a tua maior qualidade para o resto do mundo é o teu pior defeito.

24 de maio de 2011

Cerâmica

Avanço sem busca
Em campos de folhagens laminadas
Onde passeio as mãos entre o capim distraído.
E do meu suorsangue fertilizado
Florescem papoulas e crisântemos.
Sem mariposa, alma alada.

Sem inseto, pneuma ou psiquê que voeje contente por sobre a colheita onde os pássaros têm o seu simpósio.
Sem cereal, azeitona ou vinho a armazenar a ânfora decorada por Helena.
Ânfora sem alma para preencher.
Estética apagada na fluidez do rio onde foi abandonada para os arqueólogos do futuro.
E rio, rio, rio...
Até que reste somente a argila dura.

Recipiente preenchido de memórias,
Que são nada.
Vazio.
Mas ainda assim tapado.
Meu barrocorpo é tudo que sou.
Mais não há.
Ou há.
Loucuras de artistas esquecidos que foram e já não são mais nem serão outra vez.

Sou todo matéria.
Sou todo certeza.

Cerâmica mil vezes estilhaçada por crianças inconsequentes
Correndo, ávidas pelo jogo.
Copiosamente reconstruído dos cacos
É preciso que habitue ao molde das delicadas mãos da ceramista enquanto o mundo gira impulsionado por ela.

Maldita

Assim, ao longe, és apenas uma ideia,
uma lembrança do futuro que já vivemos
ou viveremos.

Assim, ao longe, és maldita.
Maldita por não mais me reconhecer em meus olhos
mas me fazer reconhecer nos teus.
Maldita por estranhar o que se destrói e reconstrói em meu peito.
Maldita por ter de refazer os meus planos.
Deliciosamente maldita.

Assim, ao longe, és uma imagem
pronta para me aceitar também e aquém do teu corpo
n'alma.
E enquanto tocam os sinos do mundo,
extasiado entro em tua vida.

9 de maio de 2011

5 Livros Favoritos

A lista que segue foi originalmente elaborada para ser publicada no Fórum Valinor, no tópico "Cinco Livros Favoritos com Kainof".

---------------------------
Os livros foram escolhidos por autores. Poderia pegar qualquer livro de qualquer dos autores a seguir arrolados e seriam todas boas escolhas. Seleciono os seguintes por serem os meus preferidos ou por serem os mais marcantes na minha vida. O resultado foi uma lista até bem variada em estilos, embora semelhantes no assunto: ensaio filosófico, romance, dramaturgia, poesia e epopéia. Alguns bem clássicos e outros quase desconhecidos, apesar da fama e aclamação no meio literário, como são os casos dos agraciados com o Nobel de Literatura, Beckett e Camus. Espero que se inspirem e interessem por essas obras.

O Mito de Sísifo – Albert Camus


“Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia”, assim começa o ensaio “O Mito de Sísifo” do franco-argelino Albert Camus. Um livro destinado a lançar questionamentos antigos sobre modos contemporâneos de viver o mundo. Um livro que trata já dos principais motes de Camus: o absurdo e a revolta.

Na mitologia grega, Sísifo, após enganar os deuses, é condenado no pós-vida ao castigo de rolar um imenso rochedo montanha acima e, quando prestes a concluir a tarefa e alcançar o topo, o rochedo despencava morro abaixo, obrigando Sísifo a recomeçar a tarefa, e assim infinitamente. Sísifo é o símbolo do homem absurdo, o homem atual, ocupado em tarefas inúteis e desgastantes para nada, para o fracasso, para após isso recomeçar tudo outra vez. “No topo é possível imaginar Sísifo feliz”. O objetivo não importa só a tarefa, a revolta diante do absurdo da existência. O niilismo de Camus é positivo, no sentido em que dispõe a invalidade de tudo não ser motivo para a apatia. O absurdo conduz ao cansaço, mas este inaugura a revolta do Homem que se vê diante de um mundo ausente onde somente a sua ação sobre ele pode lhe dar uma significação.

Esse foi o livro que mais influência teve na minha formação recente. Marcou-me profundamente e foi responsável por uma secessão de epifanias. Talvez pelo momento em que eu vivia, esse era o livro que eu estava esperando para ler naquele momento. Pois livros, sobretudo, fazem-se bons não só por autores, mas por localidades, por leitores e por momentos.

Malone Morre – Samuel Beckett

Malone é um talvez homem talvez velho talvez doente talvez ainda vivo talvez deitado em uma talvez cama talvez internado em um talvez hospital. Não é possível determinar nada com exatidão em toda a narrativa. Aparentemente, Malone é um idoso moribundo de cerca de 90 anos, incapaz de

se levantar da cama mais do que alguns centímetros, que narra com enfadonha descrição os meios pelo qual se utiliza para gastar o tempo de viver. Prosseguir, apenas isso, porque, por vezes, continuar, em simplesmente continuar é que consiste a verdadeira superação. Em um mundo privado de sentido, banal, irracional, Malone torna comum o absurdo da vida humana e naturaliza a decadência.

Para matar o tempo até a morte, Malone cria teorias, inventa histórias, faz rememorações (não importa se precisas ou verdadeiras), sente e vigia o próprio corpo (ainda que seja incapaz de manter o controle total sobre ele). “Sim, tenho meus pequenos passatempos”, repete o personagem título. Até que venha o inevitável é preciso continuar.

Uma linguagem coloquial, com interrupções de ideias, frases incompletas, parágrafos por vezes extensos demais com pluralidade de assuntos nem tão complementares. A prosa de Beckett é inusual e transforma o tédio em assunto de interesse. Suas tragédias não são boas nem más nem chocantes, são tornadas apenas cotidianas e naturais, como uma conversa no café-da-manhã.

Hamlet – William Shakespeare


O procrastinador, vingativo, rancoroso e sorumbático príncipe da Dinamarca dá-se com a aparição do fantasma de seu pai morto há pouco onde este lhe conta que foi assassinado traiçoeiramente pelo irmão e esposa. Enfurecido, Hamlet vaga pensativo planejando a vingança enquanto presencia a falsidade dos homicidas. Obcecado pela vingança ao seu modo, não tem atenção para mais nada, a ponto de rejeitar o amor de Ofélia, e nem ao menos demonstrar grande remorso ao saber do suicídio dela após o fato. O desfecho da peça, por fim, é apoteoticamente trágico.

Hamlet, além da intensidade do enredo, tornou-se um clássico, penso, pela história e personagens arquetípicos. Eles são descritos, características que se combinam, mas são estereótipos e generalizantes o suficiente. Assim o hipócrita, ganancioso e sensual Cláudio; o falastrão, empolado e pedante Polônio e o próprio Hamlet, com suas reflexões e titubeios acabam por tornar-se signos de personalidade e comportamento.

Onde há identificação entre leitura e leitor, onde realidade vivida e narrativa sonhada se encontram há a sinergia necessária para transformar palavras em sublime. À parte ser um príncipe dinamarquês (nobre, alto, belo, louro... ), a melancolia existencial evidenciada em seus momentos de solidão por solilóquios dramáticos, a procrastinação, a obsessão cega e o repúdio às convenções hipócritas da corte, fazem de Hamlet uma personagem familiarmente marcante para mim e uma obra sem par na literatura, múltipla em sentidos e interpretações.

Poemas de Álvaro de Campos – Fernando Pessoa


Fernando Pessoa tem um legado literário interessante: além de poemas próprios, escrevia sob nomes de pessoas com personalidade e estilo próprios sendo essas pessoas ele mesmo. Despersonalização da pessoa de Pessoa (entre outros trocadilhos fáceis e infames). Publicou apenas um livro em vida e poesias esparsas em revistas de literatura, entre as quais uma que ele mesmo era editor.

Entre seus heterônimos, o mais vibrante parece ser Álvaro de Campos, poeta inicialmente eufórico, da modernidade, da experimentação juvenil. Logo após melancólico, da modernidade, do tédio, do cansaço e da angústia existencial. É de Álvaro de Campos o poema “Tabacaria”, um dos mais representativos do estilo e do tema tão caro a Pessoa: as sensações, o fracasso, a utopia desenganada, a incerteza, a divisão entre a “vida vivida e a vida sonhada”.

Álvaro de Campos, na opinião do próprio Pessoa, é o mais sentimental dele mesmo. De fato, as poesias de Campos são puro sentimento, em sua maioria introspectivos e pessoais. Nos poemas de Álvaro de Campos a tristeza adquire a beleza suficiente para tornar-se arte.

Odisseia – Homero

A existência de Homero é questionável. Um único homem, rapsodo (“declamador”) e cego, segundo a tradição, autor dos 24 cantos que compõe a obra escrita no século VIII a.C. parece mesmo inverossímil. Fora as diferenças de linguagem e estilo originais nas variadas partes da história e desta com a outra epopeia homérica, a Ilíada. Nada mais natural para algo que foi escrito há milênios e traduzido e transcrito diversas vezes ao longo dos séculos. Um livro que é das maiores obras da humanidade, tanto em beleza, quanto em influência e significação.

Odisseu, após passar dez anos guerreando em Tróia, passa mais dez anos vagando no mar tentando encontrar o caminho de casa, na sua amada ilha de Ítaca. Ao longo do percurso, sofre tantas acidentes e percalços que da tripulação só resta o seu comandante. Odisseu, na viagem, conta com o auxílio da deusa Atena, mas com a inimizade de Poseidon, o deus dos mares, que através de monstros e correntes marítimas desfavoráveis prejudica o marinheiro de encontrar a rota para casa. Enquanto isso, em Ítaca, sua fiel esposa Penelope aguarda pacientemente o retorno do marido, mesmo assediada por pretendentes ao trono e ao casamento com a rainha, que dissipam os bens do rei em festas.

A Odisseia tornou-se símbolo da busca incessante do herói ao seu destino, que para atingi-lo precisa superar grandes desafios e sofrimentos. Símbolo das grandes aventuras heróicas e desesperadas. Se hoje nos soa clichê esse gênero, é devido a esta obra, escrita há milênios, e desde lá introduzida no imaginário ao ponto de pertencer ao âmago da cultura ocidental, inspiradora de um sem número de outras criações artísticas. É uma obra belíssima, com suas descrições sublimes e os epítetos marcantes e poéticos de Homero. Quanto a Odisseu, o solerte Odisseu, um modelo do homem grego, que apesar de suas elevadas qualidades físicas e de distinção nobre, sobressai-se preferencialmente através do intelecto. Foi assim que venceu o ciclope Polifemo, ouviu as sereias sem perecer, enganou a feiticeira Circe e armou a cilada para exterminar os pretendentes.

Em minha vida esta foi das obras mais marcantes, que li aos 15 anos com dificuldades imensas devido ao vocabulário e extensão. O dicionário foi companhia constante ao longo dos dias febris e empolgantes que passei junto ao livro. E de curioso passei a obcecado por mitologia e cultura grega, assunto que me consumiria na adolescência até o início da faculdade.